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A MORTE PODE ESPERAR...

Introdução

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Foi por insistência de alguns amigos e principalmente da minha venerada e atual esposa, que decidi escrever essa saga baseada em fatos reais sobre as minhas aventuras perambulando errante pelo mundo, à procura de algo que eu mesmo não sabia exatamente o que era. Eu não queria escrever pelo fato que, na minha opinião, as pessoas não acreditariam na minha história; no entanto, muita gente me perguntava: " Porque você não escreve um livro sobre as as suas experiências de vida? Afinal de contas, você viajou de carona pelo mundo sem dinheiro, conheceu 35 países, viveu em 3 continentes como imigrante, graduou em 3 universidades estrangeiras, foi policial Americano condecorado em Miami na Florida, Presidente do primeiro e único Centro Cultural Brasileiro do Havaí, e da Câmera de Comércio Brazil-Hawaii. Com certeza tem muitas histórias para contar.”

Realmente, as vezes, até eu mesmo tenho dificuldades de acreditar em tudo que realmente aconteceu nestes últimos anos de andanças pelo mundo. Sobrevivi e superei desafios como fome, avalanche, terremotos e furacoēs catastróficos, naufrágio, acidente aéreo, acidentes de moto, sequestro, facada, discriminação, pestes, racismo, prisão, depressão, ataques de pânico, ataque cardíaco, já fiquei perdido no meio da selva amazônica, fui envenenado e sobrevivi, e até fui diagnosticado com um câncer super agressivo; mas estou aqui, ainda vivo para contar essa história.

SOBRE O AUTOR

Nüremberg Penha Sant’Anna – nascido na cidade de São Paulo, Brasil, aos 19 de outubro de 1953. Cresceu no Rio de Janeiro devido a transferência do pai, militar da Aeronáutica. Aos 19 anos, logo após o serviço militar, começou a viajar o Brasil de carona, visitando vinte, dos vinte e seis estados Brasileiro, incluindo o Amazonas (onde foi guia de selva), além do Distrito Federal. Retornando ao Rio após dois anos de viagem ao redor do Brasil e da América do Sul, embarcou para Europa, residindo na França, Alemanha e Holanda como imigrante.

Concluiu o curso de idioma Francês na Universidade de Paris, seguindo para Munique, Alemanha, onde residiu e estudou Alemão na Latinamerika-Kolleg (Universidade Latino Americana), e Instituto Goethe. Terminando os estudos, viajou toda a Europa em busca de conhecimentos cultural e histórico. Visitou o total de trinta e cinco países no mundo.

Em 1979 mudou-se para os Estados Unidos onde vive desde então. Dentre as cidades Americanas onde criou algum vínculo, estão São Francisco, San Diego (California), Miami, Orlando, Cocoa Beach, Cape Canaveral (Florida), Honolulu (Hawaii), e Las Vegas em Nevada, entre idas e vindas ao Brasil. Graduou-se em Oceanografia Biológica pela Universidade do Havaí.

Após conhecer as diversidades culturais ao longo de suas viagens, decidiu se dedicar na divulgação da cultura brasileira, e escolheu o Havaí por dois grandes motivos, primeiro por se tratar de um local que, como o Brasil, é rico em beleza e cultura, e segundo, por ser um local onde recebe milhares de viajantes e turistas do mundo inteiro, servindo de canal com o resto do mundo. Daí surgiu a ideia de abrir um centro cultural. Fundador e CEO do Centro Cultural Brasileiro do Hawaii, desempenhou importante papel junto às comunidades Brasileira e Havaiana, bem como desenvolveu inúmeros projetos, dentre eles, programa de televisão sobre a cultura brasileira (Brazilian Up Date TV), curso do idioma Português para crianças e adultos (POWA Program at the University of Hawaii), web site atualizado com diversos assuntos inerente às comunidades local (www.bcchi.org), academia de futebol (Brazilian Style Soccer Academy), e show de samba (Tropikalia), além de prestar apoio e divulgação das academias locais de Capoeira e Jiu-Jitsu Brasileiro.

Recebeu proposta de rádio local para colocar no ar um programa cultural brasileiro, mas acabou sendo protagonizado por uma local que era a apresentadora do meu programa de televisão. Apesar de se considerar um “cidadão do mundo”, o autor tem orgulho de sua origem Brasileira e cidadania Americana, e tem trabalhado arduamente para mostrar ao mundo o lado positivo de sua pátria mãe, Brasil.

PRÓLOGO

"Quando me amei de verdade compreendi que, em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, e no momento exato, e então, eu pude relaxar. Hoje sei que isso tem um nome... Auto-estima.

Quando me amei de verdade, pude perceber que a minha angústia e o meu sofrimento emocional, não passa de um sinal que vou contra as minhas próprias verdades. Hoje eu sei que isso é... Autenticidade.

Quando me amei de verdade, deixei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a aceitar tudo o que acontece e que contribui para o meu crescimento. Hoje eu sei que isso se chama... Maturidade.

Quando me amei de verdade, comecei a perceber que é ofensivo tentar forçar alguma situação, ou pessoa, só para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento, ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo. Hoje eu sei que o nome disso é... Respeito.

Quando me amei de verdade, comecei a livrar-me de tudo o que não fosse saudável. Pessoas, situações e qualquer coisa. Ele empurrou-me para baixo. De início a minha razão chamou a essa atitude de egoísmo. Hoje eu sei que se chama... Amor Próprio.

Quando me amei de verdade, deixei de temer ao tempo livre e eu desisti de fazer grandes planos. Abandonei os mega-projectos do futuro. Hoje eu faço o que acho certo, o que eu gosto, quando eu quero, e ao meu próprio ritmo. Hoje sei que isso é... Simplicidade.

Quando me amei de verdade, desisti de querer ter sempre a razão, e assim falhei menos vezes. Hoje descobri que isso é... Humildade.

Quando me amei de verdade, desisti de ficar a reviver o passado e preocupar-me com o futuro. Agora, eu mantenho-me no presente, que é onde a vida acontece. Hoje vivo um dia de cada vez e isso se chama... Plenitude.

Quando me amei de verdade, percebi que a minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco ao serviço do meu coração, ela tem um grande e valioso aliado.Tudo isso é... saber viver. Não devemos ter medo de nos questionar. De fato até os planetas colidem, e do caos costumam nascer a maioria das estrelas."

(Por Charles Chaplin)

AINDA MUITO JÓVEM...

Minha infância foi muito complicada, só tinha lembranças muito vagas do meu pai. Fui criado por minha mãe, eu ainda era muito jovem para entender o que acontecia naquela época, mas sabia que meu pai, militar da Força Aérea Brasileira, era muito rígido com os filhos, e as punições aos meus irmãos mais velhos eram severas, que ao ponto de vista da conjuntura atual até poderiam ser catalogadas como atos de tortura. Me recordo de um tipo de punição que chamava-se “Postura da Estátua de Jesus Cristo”, famosa estátua cartão postal do estado do Rio de Janeiro, no Brasil. Consistia em ficar sem camisa, em pé, de costas, com os braços abertos em frente ao meu pai que estava sentado em uma cadeira com um cinturão de couro na mão. A partir do momento que se baixava os braços pelo cansaço de se manter naquela posição, o cinturão se fazia presente de forma violenta nas costas, e as chibatadas eram contadas de acordo com uma tabela para o delito cometido. Eu não me lembro de ter apanhado de tal forma, creio que era muito pequeno para isso, mas meus irmãos mais velhos passaram por isso.

Éramos uma família de 6, meu pai, signo de Escorpião, minha mãe de Áries, com 3 meninos e uma menina, onde eu era o filho mais novo, o caçula. As brigas entre meu pai e minha mãe eram constantes e ferrenhas. Até hoje não tenho lembranças da separação, só me lembro de ter saído da casa do meu pai na vila militar da Aeronáutica na Ilha do Governador no Rio de Janeiro, e ir morar com a minha tia num bairro pobre de São Paulo. Minha família era toda de lá, todos paulistas. A situação ficou bastante difícil para minha mãe, sem pensão ou apoio do meu pai, que sumiu sem deixar vestígios e tendo que criar sozinha seus 4 filhos. Fui engraxate nos bairros de periferia de São Paulo para poder ajudar em casa. Passei fome por algum tempo, andava maltrapilho de bar em bar, procurando clientes para o meu mais novo empreendimento: uma pequena caixa de madeira pendurada nas costas com graxa e escova dentro. Quando não conseguia clientes, só me restava namorar com fome, os frangos rodando nas máquinas das padarias e bares, que até os dias atuais são conhecidos como "Televisão de Pobre”. Foram dias, meses e anos difíceis, mas minha mãe, guerreira ariana, conseguiu voltar para o Rio de Janeiro, internou meus dois irmãos mais velhos no Colégio Militar e minha irmã em um convento semi-internato de freiras para meninas católicas. Fiquei só com minha mãe, que até hoje não sei porque, me matriculou em uma escola particular em um bairro boêmio e berço dos sambas de Noel Rosa, o bairro de Vila Isabel.

Foi em março de 1964, início da ditadura militar no Brasil, que tudo começou. Meu pai foi acusado injustamente de pertencer a um grupo subversivo comunista durante o golpe, pois ele não era comunista, muito pelo contrário, era daqueles militares tipo linha dura. Deram um "sumiço" nele, disseram para a minha mãe, na época, que o avião dele teria sofrido uma pane na região Amazônica, e ninguém teria encontrado os destroços na selva, sendo considerado "desaparecido”. Minha mãe começou a receber pensão da Aeronáutica e abriu um pequeno salão de beleza em casa, e assim vivemos até eu completar meus estudos do ginasial, como se chamava naqueles tempos. Minha irmã continuava no colégio interno, meu irmão mais velho se formou em jornalismo e foi morar na Bahia, e o outro do meio seguiu carreira militar, e se formou como piloto de caça da Força Aérea Brasileira. Mais tarde viemos a saber que meu irmão mais velho havia achado meu pai perambulando numa favela carioca, descalço, sem camisa e com uma calça amarrada com barbante na cintura. Tinha sido preso e torturado durante anos pela ditadura militar, e não se sabe bem como, foi parar ali naquela situação, desorientado e maltrapilho, talvez pelas sequelas das torturas que sofreu sob a tutela do regime militar. Aqueles foram tempos difíceis também para o meu irmão mais velho, que como jornalista, e filho de militar caçado e torturado pela ditadura, desenvolveu uma repulsa pelo sistema vigente, e por escrever artigos criticando os abusos ditatoriais e sem liberdade de expressão. Passou para o lado subversivo lutando com o movimento para as "diretas já". Obviamente foi perseguido depois de um evento onde os militares o ameaçaram de morte; foi quando decidiu se exilar na França e na Inglaterra durante alguns anos... Os anos 70 foram complicados. Nossa família já estava separada há anos; me encontrava só, morando com minha mãe e minha irmã na rua Senador Nabuco em Vila Isabel. Nosso apartamento estava localizado na divisa entre de 2 favelas famosas do bairro: Morro dos Macacos e Morro do Pau da Bandeira. Minha juventude foi ali vivida com mais intensidade, foi onde aprendi a "malandragem carioca", era um lugar onde não se pode vacilar, porque se não "dançava". Pela manhã, quando saía para a escola, frequentemente encontrava cadáveres pendurados com arames no pescoço preso aos postes, com um sinal no peito onde estavam escritos as letras "E.M", famosa sigla do Esquadrão da Morte, uma organização paramilitar surgida no final dos anos de 1960, cujo objetivo era perseguir e matar criminosos tidos como perigosos para a sociedade. Começou no antigo estado da Guanabara, comandado pelo detetive Mariel Mariscot, um dos chamados "12 Homens de Ouro da Polícia Carioca", e se disseminou por todo o Brasil. Em geral, seus integrantes eram políticos, membros do Poder Judiciário, policiais civis e militares, e era mantida, via de regra, pelo empresariado. A mais famosa organização foi a "Scuderie Le Cocq", cujo nome homenageava o detetive Milton Le Cocq, que foi perdendo importância ao longo da década de 1990 no estado do Rio de Janeiro, devido a ação de membros que agiam sem controle, bem como faziam a segurança de contraventores, segundo fontes da Wikipédia.

Nesse clima de terror e de incertezas, ainda encontrava espaço para fazer o que eu realmente gostava, jogar bola na rua descalço e sem camisa, soltar pipa no telhado da minha casa, e todas aquelas brincadeiras de rua que hoje não se vê mais, como pique bandeira, queimado e carniça. Frequentei também o movimento escoteiro desde lobinho até a posição de sênior, ou seja, quase toda a hierarquia do movimento. Adorava acampar e desbravar lugares na mata ainda desconhecidas. Mais tarde, deixando o movimento de escoteiro, me associei ao grupo montanhista Alcindo Guanabara, onde fazíamos caminhadas e escaladas em vários picos e montanhas do Rio de Janeiro; foi aí que comecei a perceber o meu lado aventureiro, simplesmente adorava o perigo e o desconhecido!

“A gente sai do Ensino Médio e entra numa crise existencial fodida. Com 17 anos estão te enfiando em vestibular, concursos, cursos preparatório, pagando tudo parcelado, te jogando responsabilidades, uma pressão do cacete, tudo porque “você precisa ser alguém” (como se você já não fosse). Te bombardeiam com tantas informações, que você nem pensa, só concorda. Colam na sua testa uns discursos motivacionais doentios, tais como, “trabalhe enquanto eles dormem,” “estude enquanto eles curtem”, ”viva o que eles sonham!”. Daí você começa sua vida adulta com duas saídas: fracassar e se deprimir, ou alcançar anemia, hipertensão, estresse, insônia e TOC. Não acredite nisso. Você não precisa saber o que vai fazer da sua vida aos 17. Nem aos 25. Nem aos 40. Cada um tem seu tempo. Não é só Engenharia, Direito, ou Medicina que dão dinheiro. Faça o que você gosta. Um confeiteiro bom ganha muito mais que um advogado merda. Você não precisa enriquecer pra começar a viver. Você nasce e constrói 3 coisas: Nome, Lembranças, e Patrimônio. Não é possível que o sentido da vida seja viver por coisas que você não carrega depois da morte. Não viva para atender expectativas alheias. Não namore o Pedro se você ama a Ana. Não faça medicina se a sua “vibe” é serviço social. Quem te ama vai descartar o preconceito ao invés de descartar você. Você nunca vai estar sozinho. Tem horas que vão te julgar porque você pensa diferente de todo mundo, mas não é todo mundo, é só a bolha que você vive. Tem um monte de gente que pensa igual e que adoraria ouvir o que você tem pra falar. A única pressa que você pode ter com o amor é pra amar a si mesmo. Sempre vai existir alguém que vai te olhar com brilho nos olhos te achando a pessoa mais incrível do mundo, por ser justamente como você é...”

(Por Luiz Guilherme Prado).

EXÉRCITO BRASILEIRO

Quando completei 18 anos, tive que me alistar para o serviço militar obrigatório ao qual eu odiava, talvez por ser uma das vítimas do regime. Criado sem a figura masculina do pai e experimentando a fome na infância por causa da sua ausência, não era para menos que sentisse tamanha rebeldia contra o sistema.

Eu tinha um amigo íntimo da minha idade, e na mesma situação, afirmando ter contato com um General do Exército, que poderia nos livrar do serviço militar, emitindo uma carta com um pedido especial dele à ser entregue ao oficial de recrutamento no dia da apresentação. Muito bem, conseguimos a tal carta; só que quando entramos na fila, o oficial de serviço leu a carta e disse ao meu amigo: "Você está dispensado, mas o seu amigo aí atrás (eu), vai servir "!! Foi assim que eu passei um ano como soldado do Exército Brasileiro, baseado na Primeira C.S.M do Batalhão de Infantaria no bairro de São Cristovão no Rio de Janeiro. Por incrível que pareça, foi um ano excepcional! Ali aprendi muita coisa que me foi útil por toda a minha vida, além de ter sido muito divertido, apesar da rigidez dos treinamentos. Logo nos primeiros meses de treinamento, fiz amizade com o meu comandante de tropa; era um sargento bastante rígido e praticante de capoeira, da qual eu também era adepto. Mas havia uma grande diferença entre nós, não apenas na hierarquia militar, mas é que ele era capoeirista regional e eu era angoleiro. A capoeira de angola possui um ritmo lento, trabalha com ginga e malícia dos jogadores. A capoeira regional, os movimentos são mais rápidos e ofensivos, os golpes giratórios são bem comuns. Normalmente a regional é aquela capoeira que todos gostam de assistir, pois os golpes são rápidos, tem acrobacias saltos etc...

Quase todos os dias, depois dos treinamentos militares, formávamos uma roda para jogar a capoeira na quadra de futebol de salão do quartel. O sargento gostava muito de jogar comigo por causa do meu estilo sorrateiro e malicioso, bem diferente do estilo dele que era agressivo e exibicionista; daí eu virei, como se diz no jargão militar, o "peixinho" dele, ou seja, o protegido, e que mais recebia regalias e agrados da parte dele. Sorte minha...

fonte: Arquivo pessoal (eu de camisa amarela)

Foi mesmo divertido! Me lembro de alguns eventos ocorridos que jamais saíram da minha memória de "conscrito", assim se chamava os aspirantes a soldados durante os primeiros meses de treinamentos. Foram muitas ocasiões onde eu fui escalado para o serviço da guarda noturna numa guarita fechada e calorenta, onde teríamos que ficar durante 2 horas em pé sem sair do lugar e o sargento me colocava na função de Cabo da Guarda, que na verdade era uma função de supervisor, que não precisava ficar ali parado em pé carregando um "mosquetão", fuzil daquela época. Eu andava livre pelo quartel com uma pistola calibre 45mm na cintura, que era um símbolo de poder, autoridade e previlégio perante os outros conscritos como eu. O sargento, como todo capoeirista malandro, me chamava para acompanhá-lo durante a noite nas escapadas que dávamos com o Jipe do Exército epistola automática 45 na cintura, para os ensaios das escolas de samba do Império Serrano, Mangueira e Vila Isabel; era uma loucura chegar nos guardas-costas dos bicheiros das escolas, sentar na mesa deles e pedir uma cerveja. Naquela época os militares eram os donos do pedaço; muita moral, ninguém se atrevia a desrespeitar um fardado, principalmente se fosse do exército.

Em outra ocasião, quando tive que tirar serviço na guarita, ficava observando as meninas que trabalhavam no turno da noite, em uma fábrica de sutiãs em frente ao quartel, mas depois que elas terminavam suas jornadas de trabalho, a fábrica fechava e a madrugada se tornava a cada minuto mais longa e entediada. Era muito difícil permanecer acordado naquela situação. Depois de horas tentando manter meus olhos abertos, finalmente me rendi aos braços de Orfeu, e despenquei, vertiginosamente, em queda livre de uma plataforma de madeira sobre o andaime, onde eu me encontrava cochilando, isso a uns quinze metros de altura aproximadamente. Felizmente caí na rede do gol da quadra de futebol de salão, que amorteceu a minha queda, evitando provavelmente a minha morte, ou acidente de graves consequências. Fiquei enganchado na rede, me esperneando como um peixe fora d'água. Desta vez não consegui escapar da punição do sargento. Foram 3 dias de prisão por ter dormido em serviço de guarda. O mais vergonhoso foi aturar as chacotas dos outros soldados no dia seguinte, que gritavam repetidamente: “O peixe caiu na rede!! O peixe caiu na rede!!”. Hoje dou risada disso, bons tempos aqueles... De todas as experiências que tive no quartel, quando servi no Exército Brasileiro, a mais traumática foi uma caminhada noturna na Mata Atlântica. O sargento nos comunicou durante o hasteamento da bandeira daquele dia, que na próxima semana faríamos uma caminhada noturna de 20 quilômetros, equipados com uma mochila, pá ou picareta nas costas e um fuzil a tiracolo. Seria uma noite difícil e muito cansativa para a tropa. O sargento, que era meu amigo, me chamou em particular e cochichou no meu ouvido: “Durante a caminhada vocês serão atacados de surpresa. Quando estiverem descansando, uma tropa formada por sargentos experientes, vai disparar tiros de festim e granadas de efeito moral em vocês, com o intuito de criar pânico e medo, para um treinamento no caso de uma situação real; fique preparado, mas não conte para ninguém, confio em você”. Já esperando o acontecimento, na hora do descanso no dia da caminhada, com a desculpa que precisava urinar, me escondi em cima de uma árvore no meio da escuridão. Não demorou para o ataque começar, os soldados saíam correndo em pânico como baratas tontas, tropeçando em algumas cordas previamente escondidas no caminho e levando borrachadas de cassetetes dos sargentos de cara pintada. Esperei em cima da árvore até que as coisas se acalmassem, e só desci depois que todos já haviam se retirado do local. Talvez tenha esperado tempo demasiado. Me perdi dos outros no meio da mata, me encontrava ali, perdido, sem saber o que fazer, mas graças ao meu treinamento prévio no movimento escoteiro e no grupo de escaladas, consegui voltar para o quartel já na manhã seguinte. Fui recepcionado pelo sargento do dia que me perguntou: "Por onde você andava?” Contei que me perdi no meio da confusão, mas não foi satisfatória a desculpa, o sargento me fez dar uma volta no campo de futebol no andar do pato, que consistia em segurar os calcanhares por traz do corpo e caminhar nesta posição sem se levantar. Depois de muito penar para conseguir terminar o trajeto, ele me disse que eu tinha 3 dias para descansar na prisão antes de voltar aos treinamentos...

SEM RUMO... Quando terminou a minha obrigação com o Exército, não quiz seguir a carreira militar, recebendo baixa logo depois dos 12 meses obrigatórios. Nesta ocasião, minha mãe, que já estava se relacionando com outro homem, decidiu juntar seus trapinhos e ir morar com ele no estado da Bahia. Repentinamente, percebi que não tinha mais uma casa para voltar. Minha mãe me disse que a responsabilidade dela com os filhos estava terminada. Todos os filhos já eram maiores de idade e teriam que resolver os seus próprios problemas. Sem dinheiro, o que fazer? Para onde ir? Me sentia órfão com 19 anos de idade. Sem outras opções claras no momento, virei morador de rua. Daí me foram apresentadas pela vida duas opções: Ou eu virava bandido entrando para o tráfico de drogas, ou virava revolucionário de esquerda me afiliando a algum grupo subversivo para assaltar bancos e derrubar o regime. Visto que eu não tinha uma profissão definida, sem condições financeiras para pagar um cursinho e tentar uma vaga na universidade, a tentação foi grande. Foi quando o destino me levou para uma terceira opção, que se apresentou no momento certo. Um amigo hippie que fazia artesanatos e vivia itinerante pelo Brasil, me convidou a viajar com ele até uma fazenda hippie no Estado do Mato Grosso (naquela época o estado era unificado). Viajávamos de carona com caminhoneiros que procuravam companhia, e de cidade em cidade, chegamos na tal fazenda.

A Fazenda Estrela era um lugar realmente mágico; administrada por um gaúcho vegano, alto, magro, de cabelo e barbas compridas, que já tinha viajado o mundo de carona e escolheu aquele lugar paradisíaco para criar uma comunidade hippie, longe das drogas e da violência, onde imperava a paz e o amor, a liberdade e o contato direto com a natureza. Foi ali que aprendi o que significava o movimento hippie, sua filosofia e sua maneira de ser. Fiquei maravilhado com aquilo tudo. Praticávamos yoga, trabalhava-se a terra na plantação de vegetais e raízes para o nosso sustento, e vivíamos em paz com a natureza exuberante do lugar. Foi ali também que experimentei um contato mais intenso com a natureza forte e diversificada do lugar.

Certo dia, estávamos reunidos a beira do rio de águas claras e cristalinas que circundava o local, quando de repente escutamos um ruído alto e estranho como se fosse um zumbido grave e estarrecedor se aproximando com uma velocidade contundente. Sem mais sem menos o céu escureceu com a chegada de milhões de gafanhotos numa nuvem densa e ameaçadora! Fiquei estarrecido com aquela cena, parecia uma passagem bíblica do que seria o início do apocalipse na terra! Não tinha palavras para descrever o que senti naquele momento, nunca na minha vida tinha presenciado tal coisa. Em poucos minutos as árvores verdes perdiam as suas folhas devoradas por esse insetos vorazes. O ruído produzido por eles se alimentando, era realmente aterrorizador. Enquanto observava com medo aquele fenômeno estranho, um outro ruído com intensidade crescente se aproximava rapidamente do local me deixando ainda mais perto do pânico geral. O barulho se tornou ensurdecedor com a chegada de milhares de pássaros que se alimentavam dos gafanhotos mortos caídos pelo chão, e eu ali, observando tudo aquilo como se fosse um sonho, ou melhor, um pesadelo!

Depois que tudo terminou com o afastamento do enxame de gafanhotos e do bando gigantesco de pássaros selvagens, tive dificuldades para pegar no sono. Não havia eletricidade na casa, e a noite, quando se apagavam os lampiões abastecidos à querosene, a orquestra noturna de grilos, entre outros animais e insetos noturnos, não me deixava dormir. Com o passar dos dias fui me acostumando com esse novo estilo de vida.

A Fazenda Estrela era realmente um lugar especial. Ali moravam cerca de vinte hippies entre homens e mulheres, todos jovens com menos de 30 anos; as pessoas andavam nuas, principalmente quando estavam nas imediações do rio perto da casa; eu achava aquilo muito estranho, mas fingia que era natural, principalmente quando o gaúcho estava por perto. Eles diziam que era a prática do naturalismo e a quebra dos tabus da sociedade das grandes metrópoles Brasileiras, e que ali era o nosso santuário de liberdade. Naquele tempo eu via a liberdade como uma ponte sobre um abismo e sem corrimão, e deveria me manter longe das bordas, pois era mais seguro. Certo dia, me deparei com um evento no mínimo inusitado. Despertamos pela manhã com a casa infestada de enormes formigas pretas; elas estavam em todos os cômodos da casa e se alastravam em imensos rios tortuosos de largura preponderante nas paredes do imóvel. Corremos buscando chinelos e sapatos ou qualquer outra coisa para matar as formigas invasoras, sem sucesso; então decidimos encontrar o formigueiro e despejar querosene dentro e atear fogo, com a finalidade de matar a formiga rainha e todos os seus soldados do formigueiro, e assim se ver livre das trabalhadoras, que assolavam o nosso lar; um verdadeiro ato terrorista, também não deu certo. As formigas estavam em todos os lugares e parecia que estavam crescendo em número por toda a propriedade. Uma loucura! Não sabíamos o que fazer, até a chegada de uma senhora do vilarejo vizinho, que veio nos vender algumas mandiocas. Ela tinha aproximadamente uns 70 anos e nos visitava com frequência. Quando viu o que estava acontecendo por ali, nos alertou dizendo que sapatadas, chineladas e nem tampouco fogo, iria resolver aquele problema. "O que fazer então?”, indagamos desesperados. Ela nos disse que a casa teria que ser "rezada", e só assim, depois desse procedimento, as formigas nos deixariam em paz. É claro que a maioria não acreditava em crendices populares, mas como não tínhamos outra alternativa, pedimos a ela, que era uma espécie de “Shaman” (tipo curandeiro) local que resolvesse o problema. Não deu outra para o nosso espanto. Depois que ela sentada no centro da casa, balançando um ramalhete de plantas nas mãos, começou a rezar, as formigas milagrosamente começaram a se dispersar até o ponto de só restarem as mortas, que trucidamos com nossos chinelos e sapatos, ou através do fogo do lado de fora. Depois desse dia, comecei a respeitar mais o mundo invisível dos espíritos habitantes de outras dimensões, pois era a única explicação cabível para as nossas mentes materialistas metropolitanas.

O tempo ali na fazenda parecia estagnado, estávamos todos alienados do que se passava fora dali e no resto do mundo. Naquela época não havia internet ou celulares, no máximo, para quem tinha muita grana, conseguia comprar um tijolinho com uma antena que era o protótipo de celular e custava uma fortuna. Não era o meu caso, estava num lugar de difícil acesso e completamente isolado; a cidade mais perto estava a mais de 80 quilômetros de distância dali. Creio que já havia se passado mais de um mês desde que chegamos neste local. Meu amigo parecia não se incomodar com esse isolamento, estava tranquilo fazendo seus artesanatos para poder vender quando decidisse que estaria na hora de ir embora. Tínhamos consciência que isso aconteceria, mais cedo ou mais tarde. No meu caso, mais cedo. Eu estava louco para tomar uma cerveja estupidamente gelada, e sentia falta das mulheres. Na fazenda os casais já estavam praticamente casados, e não haviam mulheres solteiras disponíveis. Apesar da liberdade oferecida aos seus integrantes, a poligamia não era aceita na comunidade.

Era uma tarde ensolarada de verão, o sol refletia seus raios dourados nas águas cristalinas do rio adjacente à nossa casa na fazenda; chamei o Gaúcho para uma conversa descontraída na beira do rio, para lhe agradecer a acolhida e lhe dizer que partiria em breve. Estava curioso para saber um pouco mais sobre ele e o porquê de ter decidido viver ali. Me contou que ainda muito jovem, não se adaptou às regras rígidas de seu pai, que era fazendeiro em Santa Maria, cidade no interior do Rio Grande do Sul. Optou por abandonar a família e sair pelo mundo viajando sem destino, à procura de aventuras. Me identifiquei imediatamente com ele, tínhamos muita coisa em comum, a diferença é que ele era branco, loiro, alto de olhos azuis e de família abastada, enquanto eu era de pele escura, filho de negro com branca, de estatura média, e pobre. Quando a coisa apertava para ele, a família (a mãe) lhe dava suporte, foi assim que conseguiu dinheiro para comprar a Fazenda Estrela e fundar aquela comunidade hippie. Eu também queria viajar o mundo, mas não tinha a grana e o suporte financeiro ou emocional de ninguém para realizar tal empreitada, mas estava convencido que o faria de uma forma ou de outra, afinal de contas, não tinha nada a perder, e nem para onde ir. O negócio era meter o pé na estrada em busca de aventura e sabedoria. Os hippies me disseram que não havia escola mais completa do que a estrada. Foi pensando assim, que comecei a viajar de carona pelo mundo...

VIAJANDO DE CARONA SEM DINHEIRO

Meu amigo artesão e companheiro de viajem já tinha material suficiente para vender durante o caminho; ele produzia pulseirinhas de couro e palha com miçangas e colares de arame com linha colorida, que formavam lindas representações de pena de pavão ou outros formatos, muito apreciado pelos jovens daquela época em que ser hippie era moda, mesmo que fosse só na aparência ou modo de se vestir. Sendo seu assistente na produção, aprendi com rapidez aquela arte e estava pronto para botar o pé na estrada. Certa manhã, nos despedimos do Gaúcho e saímos em direção à cidade de Cáceres, com destino a Cuiabá. A técnica de viajem era procurar um posto de gasolina de beira de estrada, frequentada por caminhoneiros que precisavam abastecer e descansar. Pedir carona, na maioria das vezes, não era problema, eles gostavam da companhia e o tempo passava mais rápido com o papo animado dentro da cabine. O macete era ter um bom papo, porque se não tivesse, ficava a pé no primeiro cruzamento da estrada. Chegando na cidade, o lance era procurar uma universidade para vender as pulseirinhas para as meninas e se manter longe da criminalidade dos grandes centros urbanos. As universidades eram um ambiente ideal, não só porque fazíamos um dinheirinho, mas porque as vezes também rolavam uns romances. Custava muito barato um bandejão de comida no campus, e a noite normalmente se arranjava um cantinho nos dormitórios dos estudantes para dormir por alguns dias. Passamos alguns dias juntos e nos separamos na semana seguinte. Ele foi em direção ao Pantanal e eu segui para Cuiabá.

Naquela altura do campeonato, eu já sabia fazer artesanato e dominava plenamente a técnica de viajar de carona. Durante a minha jornada em direção à Cuiabá, passei por muitas cidades pequenas, e muitas vezes mudava de trajeto porque as oportunidades eram variadas e eu viajava ao sabor dos ventos; para onde ele me levava, eu ia sem me preocupar com o destino; afinal de contas, o destino não era o mais importante, e sim a jornada até ele.

Certa vez, um caminhoneiro me deixou perto de um rio no Alto Araguaia ao anoitecer. O meu alvo era a região Amazônica, eu não sabia que naquele tempo o lugar era reduto das guerrilhas comunistas do PcdoB.

“A guerrilha do Araguaia foi um movimento guerrilheiro existente na região Amazônica Brasileira, ao longo do rio Araguaia, e palco das operações de combate entre a guerrilha e os militares.”

(Fonte: Wikipedia)

Caí na besteira de atravessar a pé uma ponte sobre o Rio Araguaia durante a noite. Carregava um saco cilíndrico estilo militar nas costas, e usava botas tipo coturno, herdadas do meu irmão do meio que estudou no Colégio Militar. Sem mais sem menos me vi cercado por vários soldados do exército do batalhão anti-guerrilha que foram logo agredindo, pensando que eu era um membro guerrilheiro de Carlos Marighella, famoso comandante guerrilheiro procurado em todo o território nacional. Naquele momento pensei que seria torturado, morto e jogado no rio dentro do próprio saco que carregava. A minha sorte foi que carregava comigo uma identidade do Ministério da Aeronáutica. Por ser filho de militar, eles não sabiam da condição do meu pai, mas disse que o meu irmão era piloto de caça da Aeronáutica em Pirassununga. Comigo também encontraram o meu certificado de reservista; mencionei o nome do meu amigo sargento, onde servi e pedi que telefonassem para lá a fim de confirmarem que eu não era guerrilheiro. Assim foi feito, e depois das devidas desculpas, me liberaram. Ufa! foi por pouco... Depois do susto, aprendi a não mais viajar como andarilho durante a noite, principalmente por aquelas bandas. Ainda traumatizado com aquela experiência, decidi pegar um barco com destino à região Amazônica em vez de pedir carona na estrada. Foi exatamente o que eu fiz no dia seguinte, "rapei fora cumpadi", "sumi na neblina", como se diz nas favelas cariocas.

AMAZONAS E A SELVA

A viagem para o Amazonas foi bastante complicada, não havia transporte fluvial direto até a cidade de Manaus no estado do Amazonas. Eu queria ver a selva Amazônica de perto, queria estar lá dentro mesmo, com todo aquele encanto e mistério; era o desconhecido que eu procurava e a selva Amazônica representava isso para mim, sabia que ainda tinha muita coisa escondida lá, ainda desconhecido da humanidade. Talvez uma cidade perdida, ruínas de uma civilização avançada que desapareceu com o passar dos séculos; claro, tudo fruto da minha imaginação. Não, eu não usava drogas, só queria imaginar como seria uma experiência como essa. Ainda não existia o filme Indiana Jones e a Arca Perdida, mas eu já viajava nessa ideia; que pena que não mandei para Hollywood, hoje estaria rico (rsrsrs)! Para chegar em Manaus, tive que alternar os trajetos entre caronas com caminhoneiros, que na sua maioria voltavam das grandes capitais com carga para a região norte, e barcos que subiam os rios de cidade em cidade; quanto eu mais me afastava da região sul em direção ao norte, as condições ficavam mais precárias; a infraestrutura de transporte rodoviário ou fluvial deixava a desejar. Uma vez, me recordo que tomei um café da manhã numa embarcação que subia o rio Madeira e tive uma diarréia que parecia que ia morrer. Fiquei bastante desidratado e não havia por ali nenhum hospital que eu pudesse pedir ajuda, teria que esperar até chegar em Manaus para tratamento. A minha sorte foi que na embarcação tinha uma enfermeira Alemã que era voluntária em uma ONG de Manaus, que prestava serviços para as populações ribeirinhas, que veio em meu auxilio. Ela tinha umas pílulas de carvão vegetal que foram a minha salvação. Vim a descobrir mais tarde que o café servido pela manhã, tinha sido feito com a água do rio que provavelmente estava contaminada com bactérias nocivas. A partir do momento que deixei o eixo Rio-São Paulo, entendi que as diferenças culturais eram gritantes de região para região, de estado para estado e de cidade para cidade, e comecei a duvidar daquela mentalidade de que o Brasileiro é hospitaleiro e que não era racista, a coisa não era bem assim. Em muitos lugares que passei, principalmente nas cidades pequenas, as pessoas sempre me viam como um forasteiro, como dizem por lá, "o cara é de fora", ou me chamavam de "negrinho", ou na maioria das vezes de "carioca", por causa do meu sotaque do Rio de Janeiro, apesar de ter nascido no bairro do Tatuapé na cidade de São Paulo. Sim, existem cidades no Brasil que não aceitam muito bem quem é de fora, ficam desconfiados e nem sempre são amigáveis. A grande vantagem de crescer no Rio de Janeiro, é que lá se aprende muito cedo a levar a coisa no bom papo, na conversa descontraída e com aquela pitada de humor e sarcasmo típicos de um carioca "ensaboado". Tem que levar a coisa de leve, no "sapatinho", como diz o bom malandro. Isso me ajudou muito em situações de eminente conflito cultural, onde a primeira impressão é a que fica. Tem que saber levar, malandro demais se atrapalha!

Meu sonho de desbravar a Amazônia a partir de Manaus como base, foi alterado, senti que não era o momento adequado para esta empreitada. Viajar pelo Brasil sem dinheiro já estava complicado, por aquelas regiões do Centro Oeste e do Norte ainda mais. Não havia desistido da ideia original, apenas estava adiando o projeto, sabia que mais cedo ou mais tarde iria realizar este sonho.

BAHIA, O DESTINO QUE IRIA MUDAR A MINHA VIDA... Com a dificuldade de viajar nessas condições, decidi alterar o meu destino e optei ir para a Bahia. Estava com saudades de umas praias e soube que meu amigo artesão andava por lá, mas não sabia exatamente aonde. O litoral Baiano era trajeto quase que obrigatório para qualquer "Maluco de Estrada", era assim que se chamava os hippies que faziam artesanato e viajavam vendendo seus trabalhos expostos no chão das calçadas das grandes metrópoles brasileiras, como se vê ainda hoje na Praça da República em São Paulo, ou na Avenida Atlântica em Copacabana no Rio de Janeiro. Seria minha oportunidade de realmente testar meus trabalhos artísticos como artesão. Com certeza a competição seria grande, mas também as oportunidades para expor em pontos turísticos seria bem melhor, afinal de contas, eu não tinha nada a perder, estava mesmo a deriva; então, qualquer coisa me parecia melhor que comer barro vermelho da região Centro Oeste.

Chegando na Bahia, fiquei encantado com o povo de lá! Fui direto para Salvador, onde fiquei hospedado no Albergue da Juventude, também conhecido como Hostel no bairro da Barra, um lugar turístico onde se podia vender meus artesanatos em qualquer lugar do litoral. O Farol da Barra, além da beleza paradisíaca, é até hoje um lugar cheio de turistas que compram artesanatos. Ficava todas as tardes no meu lugar preferido, um bar no topo de um pequeno morro, de frente para o mar, com mesinhas do lado de fora, cobertos por singelos guarda-sois feito de palha; a especialidade da casa eram os frutos do mar, muito apreciado pelos soteropolitanos e por turistas vindos de todas as partes do mundo. O Hostel onde eu ficava era um lugar interessante, que proporcionava a facilidade de se fazer amizades com pessoas do mundo inteiro. Para não gastar comprando comida na rua, o que não era tão confiável em muitos lugares na questão da limpeza, eu fazia uma vaquinha com outros hóspedes, e me comprometia a cozinhar para eles. Desta forma , não seríamos reféns da culinária Baiana, carregada de pimenta e óleo de dendê todos os dias. Além disso, na cozinha comunitária sempre haviam muitos gringos que, assim como eu, não eram muito adeptos das moquecas de peixe e acarajés oleosos do lugar, que apesar de serem deliciosos, meu fígado não os recebia muito bem.

A Bahia é realmente um lugar fascinante. Sabia que minha mãe estava morando nesse estado, mas não sabia qual cidade exatamente. Ela gostava muito de ir para a Costa do Sauípe, mas também viajava com frequência para ver as netas que moravam em Salvador. Naquela época não tínhamos celular ou internet, e quando eu viajava pelo Brasil a fora, não tinha como saber da família. Notícias de outros parentes e amigos se fazia através da minha irmã que morava no Rio de Janeiro, nas poucas vezes que nos falávamos por telefone fixo. Praia, capoeira, bares e restaurantes da cidade, vendendo meus trabalhos, era assim que eu vivia, sem me preocupar com o futuro. O contato que tive com os gringos que arranhavam o portunhol no hostel, me despertou uma curiosidade e vontade imensa de viajar para a Europa; nunca tive muito interesse em ir para os Estados Unidos. Adorava o idioma francês que era uma matéria obrigatória, igualmente com o inglês que eu detestava. Não tinha interesse na cultura Americana, eu achava que eles eram super cafonas e não tinham charme. O que queria mesmo era sair do Brasil e me educar na Europa. No Brasil não conseguia dinheiro para pagar um cursinho preparatório para o vestibular, até tentei estudar me matriculando em um curso para técnico em eletrônica, mas não deu certo, não tinha como me sustentar.

Me recordo exatamente o dia em que eu joguei a toalha e desisti de tentar uma faculdade. Era uma noite calorenta, depois de um dia de trabalho cansativo e estressante no Banco Nacional, peguei um ônibus lotado e sem ar condicionado para o cursinho de eletrônica no outro lado da cidade. Entrei na hora do rush e carregava vários livros e uma régua longa em formato da letra T, que era usada para fazer os desenhos em classe. Assim que entrei no coletivo, com as mãos ocupadas, coloquei a régua T embaixo do braço afim de alcançar a carteira de dinheiro no bolso traseiro dos meus jeans apertados; com o ônibus lotado, era uma missão impossível, o motorista dirigia como um alucinado, e quando fui passar pela roleta, ele freou bruscamente, a régua T que era feita de acrílico envergou no cano lateral e chicoteou a cara de um sujeito enorme que estava sentado no banco lateral; cheguei a escutar o estalo que inchou seu rosto na hora. Não deu tempo para pedir desculpas, o cara se levantou e partiu na minha direção como um touro raivoso. Desesperado, corri para a porta da frente para não ser esfolado pelo mastodonte que derrubava as pessoas no seu caminho querendo me alcançar. Por sorte, consegui escapar no último segundo; ele ainda tentou me segurar pela camisa que ficou rasgada no processo da fuga. Em ambiente fechado e cheio de gente, não tem capoeira que possa te livrar de ser espancado. Depois de correr por alguns minutos, me dei conta que havia perdido meus livros e a régua T que eram super caras. Foi nesse dia que decidi que não queria mais este estilo de vida. Caí na estrada viajando de carona como um hippie, era a melhor opção...

Certa noite, quando andava entre as mesas do restaurante no morro da Barra em Salvador, oferecendo minhas pulseirinhas de couro e palha para os turistas, encontrei pela força do destino, minha mãe, que jantava com seu parceiro amoroso numa mesa do lado de fora, com vista para o mar. Fiquei chocado; foi uma surpresa daquelas que você nunca pode imaginar. Ela não podia esconder sua surpresa em me encontrar ali como um hippie vendendo artesanato de mesa em mesa. Eu não sabia o que dizer, estava feliz, mas ao mesmo tempo revoltado com ela por ter me "abandonado". Com o tempo, entendi que ela tinha o direito de curtir a vida; afinal, teve a responsabilidade de me educar e me ajudar até minha maioridade. Seria muito egoísmo de minha parte exigir algo mais do que isso. Sentei-me ao seu lado, e conversamos durante horas sobre o que havia se passado em nossas vidas. Combinamos de nos encontrar ali no mesmo local no dia seguinte com o meu irmão do meio, que estava de passagem a trabalho por alguns dias. No dia seguinte nos encontramos no mesmo lugar, eu, minha mãe e meu irmão do meio, o parceiro dela resolveu não vir para não interferir nos assuntos da família. Ele sabia que n ão era bem vindo de todas as formas. Depois do jantar conversamos sobre vários assuntos, e senti que eles não aprovaram o meu novo estilo de vida. Meu irmão do meio, que era piloto de caça da Aeronáutica, havia se decepcionado com a carreira militar, o que foi uma surpresa para mim, e foi para a aviação civil trabalhar na Cruzeiro do Sul, como comandante de MD11, um tipo de jato comercial bastante moderno na época. Depois de alguns bate-bocas, me perguntaram se era isso mesmo o que eu queria da vida; respondi que não tinha muitas opções no momento, já que não poderia mais contar com a ajuda financeira da família. Meu irmão, que ganhava muito bem, me perguntou: "O que você gostaria de fazer da sua vida se tivesse dinheiro para isso?” Respondi que o meu maior sonho era deixar o Brasil e me educar na Europa, na França para ser mais específico. Então ele me fez uma proposta indecente. Me disse que me daria uma passagem de avião para qualquer lugar do mundo que eu escolhesse, mas com duas condições: 1ª. - A passagem seria só de ida. 2ª. - Não me daria nenhum dinheiro para a viagem. Achei um insulto, e de duas uma, ou ele desejava se livrar de mim de uma vez por todas, ou me testar para saber se uma viagem dessa era realmente o que queria. Fiquei com a segunda opção, acreditando que ele queria me testar.

Eu o desafiei dizendo: "Se você não me der a passagem, eu nunca mais o respeitarei como homem". Ele sentiu que eu não estava de brincadeira e concordou, desde que eu respeitasse o acordo, e assim foi feito, escolhi Portugal como porta de entrada na Europa. Nada melhor do que começar num país que pelo menos eu falasse o idioma, e assim ficou combinado. Minha mãe sabia que eu não voltaria atrás e que tinha a tenacidade e coragem para seguir com esse plano, visto que já estava na estrada aventurando por algum tempo. Ela se prontificou a me ajudar a tirar meu passaporte, mas não poderia me dar nenhum dinheiro para a viagem. Tirei meu passaporte, e na semana seguinte recebi do meu irmão a passagem só de ida, Salvador-Recife-Lisboa. Minha mãe foi me levar até o aeroporto, e quando embarquei para Lisboa saindo de Recife, tinha exatamente o equivalente a $20.00 dólares no bolso, meus documentos, uma mochila com minhas ferramentas, algum material de artesanato, e muita disposição para a aventura. Afinal de contas, não tinha nada a perder!

“O preço de qualquer coisa, é a quantidade de vida que você troca por isso...

”(Por Henry David Thoreau).

Finalmente cheguei em Portugal. Segui para o setor de imigração que me atendeu muito bem, me dando as boas vindas. Em seguida fui buscar minha mochila no setor de retirada de bagagens. Após a vistoria, caminhei para o saguão de desembarque internacional do aeroporto, saí para a rua e senti um frio que nunca tinha sentido antes em minha vida. Voltei para dentro do saguão para retirar um casaco estilo "Japona", que estava dentro da mochila. Após vestir o casaco, sentei em uma cadeira ainda dentro do aeroporto e pensei: "Agora ferrou, o que vou fazer? Para onde eu vou? Acho que a primeira coisa a fazer será procurar uma casa de câmbio e trocar meus míseros $20.00 dólares por moeda local, e armar um plano de ação". Pensei então que a melhor opção seria pegar um ônibus e ir para alguma universidade. Essa técnica que aprendi com o meu amigo hippie artesão na fazenda Estrela em Mato Grosso nunca falhava, era só conhecer alguns estudantes, vender pulseirinhas, comer nos bandejões que toda universidade tem, e conseguir algum lugar no dormitório comunitário para dormir com alguma Portuguesa, de preferência bonitinha. Enquanto organizava as idéias, notei um jovem de cabelos compridos e com rabo de cavalo que andava de lá pra cá, parecendo estar procurando por alguém. Ele aparentava ter mais ou menos a minha idade, ou seja, mais ou menos vinte anos. Ele se aproximou de mim e perguntou: "Você estava no voo da Varig que veio de Recife?” Respondi que sim, e ele me perguntou se eu tinha visto uma jovem morena desembarcando do mesmo voo. Respondi que não.

Como ele aparentava muito desesperado e confuso, sugeri que fosse até o balcão da companhia para pedir informações, e que eu o acompanharia até lá. Chegando no balcão descobrimos que o dia do desembarque estava errado, não era o mesmo voo, e essa jovem chegaria no dia seguinte. Aliviado, sentamos para tomar um café e conversarmos um pouco. Contei minha história e que estava indo para a universidade, não para estudar, mas para sobreviver, já que estava aventurando sem dinheiro. Para a minha surpresa, ele me pediu que o acompanhasse até a sua casa, e de lá, iríamos até a universidade. Com certeza, como bom carioca, eu fiquei bastante desconfiado, mas segui meus instintos e o acompanhei. Ele morava no centro de Lisboa numa casa grande com vários aposentos. Me pareceu ser de família classe média alta. Me apresentou seus pais, que muito educados me convidaram para que ficasse para o jantar, o que aceitei naturalmente. Durante o jantar contei a minha história, e que estava na verdade fugindo da ditadura militar no Brasil, e portanto era um refugiado político, o que não era uma mentira, mas admito, um exagero. Os pais deles eram muito educados e politizados. Portugal estava passando por um período de intensas mudanças no quadro político; as eleições haviam sido feitas alguns dias antes da minha chegada, com a vitória de Ramalho Eanes, primeiro presidente escolhido democraticamente na história do país. Era por isso que eu tinha notado uma grande sujeira nas ruas decorrente das propagandas eleitorais. Conversamos durante horas sobre vários assuntos, política, música popular e erudita, artes, e futebol é claro. Depois de algumas taças de vinho do Porto de excelente qualidade, o sono e o cansaço se faziam notar pelos meus constantes bocejos, afinal de contas, ainda estava sofrendo com a diferença do fuso horário, tinha feito uma viagem longa. Meus anfitriões, notando o meu cansaço, gentilmente me convidaram a pernoitar, o que aceitei de bom grado.

Fiquei impressionado com aquela família, todos eram de refinada educação e sensibilidade. Minha primeira impressão do povo não poderia ser melhor, bem diferente daquele estereótipo de que Portugueses são ignorantes e burros, que impera nas piadas xenofóbicas Brasileiras; eu nunca pensei assim, eles chegam no Brasil sem nada, trabalham duro e prosperam, viram comerciantes de sucesso e donos de vários imóveis, enquanto muitos brasileiros continuam na miséria; então, quem é o burro nessa história?

No dia seguinte, acordei tarde, estava ainda sobre os efeitos da diferença de fuso horário, mas aquela família maravilhosa me deixou dormir tranquilamente. Assim que acordei, meu amigo me convidou para um pequeno lanche, pois a hora do café já havia passado. Fiquei sem graça com toda aquela gentileza. Ainda estava na memória o gosto do jantar da noite anterior, típica culinária portuguesa, uma delícia, muito bem preparada e servida. O lanchinho deles era de frios, vários tipos de queijos com pães variados. A famosa broa portuguesa era a minha preferida.

Depois que terminamos, meu amigo me fez uma oferta. Ele me disse que iria com um amigo de carro para o Algarve. Muita gente confunde o Algarve com uma cidade, porém é importante saber que é uma região. “A região do Algarve fica no extremo sul de Portugal e também é conhecida como o Distrito de Faro, tendo Faro como a cidade mais populosa e capital deste Distrito.” (Fonte da Wikipedia).

Ele perguntou se eu gostaria de acompanhá-los. Respondi que estava sem dinheiro, portanto não poderia dividir as despesas da viajem. Ele somente sorriu e me disse que eu não tinha que me preocupar com isso, pois eles dariam um jeito. Coisa de jovens aventureiros! Topei e partimos para a casa do amigo dele.

O trajeto até a casa do amigo dele foi de ônibus urbano. Durante a viajem, permaneci em silêncio, observando o caminho. As ruas estavam cheias de propaganda política, grudadas em tudo quanto é lugar, paredes de edifícios, casas, estabelecimentos comerciais, postes, pontes; para onde eu olhava tinha papel grudado, a coitada da Lisboa romântica e histórica estava toda revestida de papel e grafite, infelizmente. Tudo em volta era muito bizarro, tinha a sensação que estava realmente no velho mundo, aqueles prédios antigos, na sua maioria me faziam lembrar algumas construções semelhantes no centro do Rio de Janeiro, principalmente as igrejas. Não podia acreditar que estava em outro país, em outro continente, parecia um sonho, mas se fosse, eu não queria acordar, era incrivelmente real, ou seja, um sonho realizado.

Chegamos na casa do tal sujeito, o cara também de cabelos longos e calças jeans, me recebeu muito bem, mas eu tive muita dificuldade para entender o que ele falava. O idioma falado em Portugal já era complicado de entender, mas o dele ainda mais. Ele era de outra província, com sotaque carregado e vocabulário bastante diferente dos outros. Ontão eu concordava com tudo, mesmo não sabendo bem do que se tratava. Ele nos levou até a sua garagem, abriu a porta e descobriu com uma lona, um carro velho e estranho que eu nunca tinha visto, era de fabricação francesa, um Citroën 2CV. Não sei se chegaríamos ao destino naquela geringonça, mas seguimos viajem assim mesmo.

ALGARVE

O caminho para o Algarve foi bastante interessante, fiquei apaixonado por Portugal, o povo, a culinária, as belezas naturais da terra, sua cultura e sua história. Não tinha ideia de quanto educados e cultos eram os Portugueses. É claro que em qualquer lugar vai ter "parvos", é assim que eles denominam as pessoas burras e ignorantes, mas em geral o povo me impressionou bastante. Chegando nessa região, pude notar “uma região bem delimitada e individualizada, não só em termos geográficos mas também do ponto de vista social, com características históricas, climáticas, etnográficas, arquitetônicas, gastronômicas econômicas muito próprias. (Fonte Wikipedia).

Atualmente, o turismo constitui o motor econômico do Algarve. A antiga província tradicional possui algumas das melhores praias do Sul da Europa, e condições excepcionais para a prática de atividades e desportos ao ar livre. Era um lugar perfeito para conhecer pessoas e se divertir nas belas praias do local. Passamos alguns dias ali curtindo e o tempo parecia que passava rápido demais; é sempre assim quando se vive de aventuras memoráveis, a gente não sente o tempo passar... Os Albergues da Juventude sempre foi a melhor opção para hospedagem, já que eram baratos. Alugamos um quarto com beliches e preparávamos as nossas refeiçōes na cozinha comunitária do hostel, ali era um ótimo lugar para se fazer amizades. Eu cozinhava bem, modéstia a parte, aprendi com minha mãe e com o movimento escoteiro. Certa noite, juntamos alguns amigos para tomar cerveja e jantar. Preparei a minha especialidade: strogonofe de frango com castanhas de caju, foi um sucesso! Depois disso, todos os dias o pessoal me chamava para cozinhar, com eu estava duro, sem dinheiro para dividir as despesas, contribuía com trabalho e estávamos todos em sintonia, não havia mimimi como hoje em dia. Depois do jantar, saímos em grupo para conhecer as ruas mais movimentadas do local, ruas estreitas e cheias de barzinhos transados com muita gente bonita tomando vinho e cerveja, a música era meia esquisita para o meu gosto, mas gostava dos fados românticos que de vez em quando se ouvia em certos lugares. Ali parecia um lugar ideal para vender meus artesanatos, mas não tinha certeza se podia, o pessoal talvez não gostasse, ou mesmo não sabia se era permitido pelas autoridades locais. De qualquer forma, meus amigos não me davam trégua, sempre tinham alguma coisa para fazer e eu estava tipo "Maria vai com as outras" ou melhor, "Mario vai com os outros".

Com poucos dias de Portugal, já estava falando com sotaque local, comecei a perceber que eu tinha uma facilidade natural para aprender idiomas pelo fato de pegar sotaques locais com rapidez. Aconteceu a mesma coisa na Bahia, depois de alguns dias já estava falando como um baiano, em Porto Alegre igualmente, peguei a maneira de falar dos gaúchos facilmente, sotaque mineiro e nordestino domino até hoje.

Os dias eram tão intensos que eu não sentia o tempo passar, até que meu amigo e anfitrião Português me disse repentinamente que deveríamos partir de volta para Lisboa ao amanhecer do dia seguinte, porque suas "férias" haviam terminado e teria que voltar aos estudos. Outra vez senti que tinha que tomar uma decisão, e que destino deveria seguir. Não queria dar a impressão que estava abusando da sua camaradagem voltando com ele, e que seria melhor eu seguir viajem, dali mesmo, para a estrada com destino a França, que era o meu plano inicial. Ele recusou essa ideia e me disse que eu teria que voltar com ele de toda a forma porque não seria legal sumir na neblina, sem se despedir dos seus pais. Fiquei sem graça, mas acabei concordando com ele, na manhã seguinte, tomamos um café da manhã reforçado e caímos na estrada com destino a Lisboa. Escolhemos fazer um outro trajeto na volta o que foi muito interessante, passamos por pequenas cidades do interior e de vez em quando parávamos para tomar um café e fazer um pequeno lanche. O assunto era sempre os barzinhos que frequentávamos, as mulheres que conhecemos e as amizades que fizemos por lá.

A VOLTA PARA LISBOA Chegando de volta à Lisboa, fomos até a casa do outro cara que viajava com a gente, e seguimos para casa de ônibus, ou autocarro, como eles dizem por lá. Era uma pena que nessa época não tinha internet e nem celulares para registrar esses momentos; eu não tinha nem mesmo uma câmara fotográfica vagabunda para poder guardar em fotos, aquela memorável experiência que estava só ainda começando. Como era de se esperar, seus pais me receberam de volta, com tamanho entusiasmo, que me deixava encabulado, não sabia o que dizer, ou como agradecer aquele calor humano vindo de tão singela família. Depois do jantar típico como era de costume na casa deles, ficamos horas conversando sobre as diferenças entre Brasil e Portugal, e o que estava acontecendo na política dos dois países. Portugal acabava de sair de uma ditadura e o Brasil vivendo uma a todo o vapor. Lisboa, como cidade principal, passava por grandes mudanças políticas e econômicas, a inflação era alta e a moeda local, o Escudo, muito parecido com a moeda viginte no Brasil na época, o Real Brasileiro, o qual desvalorizava constantemente. Também nessa época retiraram as armas dos policiais e a bagunça era generalizada. Mas não me recordo de alta criminalidade, e comparando com o Brasil, Portugal era um jardim de infância. Durante a conversa, informei que os deixaria no dia seguinte seguindo viajem para Paris, me perguntaram se eu não queria ficar por mais alguns dias, agradeci e disse que precisava seguir o meu destino e fui dormir com aquele friozinho na barriga que dá quando a gente não sabe bem o que vai acontecer; principalmente se se você estiver completamente duro, sem nenhum dinheiro guardado, nem mesmo para emergência. Meu plano era na verdade não sair de Lisboa imediatamente, mas tentar vender alguns artesanatos na universidade e seguir adiante mais tarde, pelo menos com algum no bolso. No dia seguinte peguei minha mochila e fui me despedir dos meus anfitriões, que me disseram que eu não poderia seguir viajem de estômago vazio. Lá vamos nós outra vez degustar aquela culinária espetacular, é claro que comi como um porco querendo estocar no estômago o suficiente para a janta também, visto que eu não tinha certeza de quando seria a minha próxima refeição. Abastecido devidamente seguimos até a porta de saída da casa onde nos abraçamos na despedida. Estava emocionado, mas o inesperado ainda estava para acontecer. O pai dele tirou uma pequena caixa de metal que estava em cima da mesa, que aparentava ser uma caixa de biscoitos finos e me entregou. Pensei o quanto gentil era aquele gesto, até que ele abrindo a caixa que continha uma quantidade razoável de notas de dinheiro e moedas, me disse: "Esse dinheiro é a sobra de algumas viagens que fiz para outros países e nunca troquei por Escudos, não tenho uso para ele agora, guarde com voce e use quando chegar nesses países, não troque agora nas casas de câmbio porque o governo vai te cobrar altas taxas, não vale a pena, espere para gastar em outro lugar que não seja em Portugal. Comovido, peguei a caixa e parti para a estação de trem, sem olhar para traz. Não tinha como...

Não estava preparado para encarar a estrada pedindo carona, precisava me acostumar mais com o velho continente, tinha muito que aprender, então decidi ir para a Universidade de Lisboa tentar vender algum artesanato e fazer amizades por lá; tinha certeza de que eles poderiam me ajudar a conseguir mais informações práticas de como viver com pouco ou sem nenhum dinheiro no bolso; afinal de contas a grande maioria dos estudantes não tem dinheiro mesmo, seja aqui, no Brasil, ou em qualquer lugar do mundo.

Já eram mais de meio-dia quando cheguei ao campus da Universidade, fui direto para o restaurante fazer uma boquinha antes de começar expor meus trabalhos no chão em frente a livraria. Ali eu precisava dos tickets de refeição que só estudantes poderiam obter, apresentando a devida carteirinha no caixa. Não gostava de pedir, mas oferecia uma pulseirinha feita a mão em troca de um ticket refeição, não tive problemas, logo apareceu uma "rapariga" que gostou do meu trabalho e trocou uma pulseira por uma refeição.

O bandejão não era tão delicioso como as refeiçōes na casa do meu amigo, mas era decente, serviram peixe com batatas e vegetais. Logo depois fui para a porta da livraria procurar um lugar adequado para expor meu trabalho, estava difícil, tinha gente passando em todo lugar, não queria ficar no meio do caminho atrapalhando a circulação dos estudantes que andavam apressados para a próxima aula. Consegui um cantinho sem muita visibilidade perto da porta da livraria e logo apareceram pessoas interessadas nos trabalhos e numa boa conversa descontraída.

A tarde passou rapidamente e eu tinha que arrumar um lugar para dormir, arrumei minhas coisas e fui para o dormitório do campus, ali do lado tinha uma pequena lanchonete onde estudantes se reuniam no final da tarde para conversar, naquela época não era proibido fumar ou consumir bebidas alcoólicas. Fiquei sentado ali por um tempo e logo fiz amizade com alguns "gajos" do local, expliquei a minha situação e logo apareceu um para me dar aquela forcinha; poderia dormir no chão do quarto dele, mas teria que entrar cedo como convidado amigo e permanecer ali até o dia seguinte sem ser notado, ficar entrando e saindo poderia sujar a barra dele. Aceitei a condição, arrumei meu saco de dormir num cantinho do quarto dele depois do banho e fui dormir, ele continuou de luz acesa por um tempo estudando, mas se recolheu em seguida porque tinha que acordar cedo para as aulas do dia seguinte.

Não tive nenhum problema nos dias seguintes, a mesma rotina, perambulava pelo campus e já conhecia bastante gente, a maioria, amigos dos amigos, assumiam que eu era um estudante de intercambio do Brasil, e os outros não entravam em detalhe sobre o meu status para não me prejudicar. Da porta da livraria, para o restaurante seguindo para a lanchonete e terminando no alojamento, rolou até um pequeno stress com um amigo do meu companheiro de quarto, que insinuou que éramos um casal gay. Não ficou barato, lhe custou uma bicuda na altura da dobradiça, que o deixou no chão se contorcendo de dor. Por causa deste evento, acabou a minha mordomia na universidade, eu já tinha guardado o suficiente para encarar a estrada, e assim foi feito. No outro dia, meti o dedo na estrada e sumi na neblina...

ESPANHA

Depois de tudo o que aconteceu, a melhor coisa seria seguir viagem para a França, meu objetivo inicial; eu não tinha data certa para chegar, então poderia me dar ao luxo de ir conforme o vento, com leveza e despreocupado com o itinerário, afinal de contas o importante era a jornada e não o destino.

Comprei um pequeno mapa num posto de gasolina na saída de Lisboa, não haviam inventado o GPS, o negócio era no papel mesmo. Fiquei procurando a bomba de gasolina onde a maioria dos caminhoneiros abastecia que era separada dos que abasteciam carros de passeio, a intenção era pedir carona para alguém que estivesse indo para a Espanha, país vizinho. Estudando o mapa notei que teria duas opçōes de itinerário, seguiria para o norte em direção a Santiago de Compostela, terceiro destino de peregrinação cristã mais importante do mundo, ficando atrás somente de Roma e Jerusalém, ou seguiria mais para o oeste em direção a Madri, capital da Espanha. Achei melhor deixar o destino decidir, ou seja, a primeira carona que eu arranjasse para algum destes destinos eu tava dentro.

Foi o que aconteceu, me aproximei de um senhor gordo que abastecia um caminhão tipo carreta e perguntei se estava indo para Madri, as chances de alguém estar indo para uma grande metrópole era muito maior do que alguém indo para Santiago de Compostela, cidade muito menor. Não deu outra, ele estava indo para Madri, para a minha sorte, não queria passar a noite naquele posto barulhento e empoeirado. O gordo foi logo falando para subir no caminhão que ele já estava de saída, não demorei e pulei na cabine e partimos para a estrada. No caminho ele me perguntou da onde eu era, e o que eu faria em Madri, não perdi tempo e mandei aquela historia de pobre exilado e vítima da ditadura militar no Brasil, por isso estava procurando uma vida nova naquele país, a partir daí conversamos muito sobre política e a vida no Brasil até evoluir para futebol e música brasileira. Fiquei mais uma vez impressionado com o conhecimento da cultura brasileira pelos portugueses, eles sabiam de tudo, mas não esperava que um motorista de caminhão fosse tão versado nesses assuntos, acho que ele também não esperava que um maluco hippie de estrada pudesse falar dessas coisas e fosse tão tagarela como eu.

As horas passaram com rapidez durante aquele papo animado e a fome foi apertando, não tive tempo suficiente para relaxar e curtir a paisagem, o cara não parava de falar, era de costume no mundo dos caronas conversar bastante com os motoristas, era por isso que eles davam carona, para não ficar entediados durante o trajeto, desta forma eles evitavam a rotina e o tempo passava mais rápido. Falei que estava com fome, e perguntei se ele iria parar em algum lugar para almoçar. No Brasil, os caminhoneiros costumavam pagar o almoço quando o carona era bom de papo, quando era ruim eles nos deixavam no próximo posto da estrada ou no meio dela se ficassem muito brabos. Como o papo estava de vento em popa, assumi que ele iria pagar o almoço, pura ilusão, muito gentil ele pegou um saco de papel com dois sanduiches dentro e me deu um. Aceitei é claro, o sanduiche estava delicioso, era de salame com queijo e muito bem servido. Não demorou muito tempo para o sanduiche começar a fazer efeito, o caminhão sacudia com frequência já que a estrada não era muito boa, e um cheiro horroroso começou a invadir a cabine, era o gordo soltando gases que não eram nobres, o cara estava podre, pedi para abrir a janela o que me foi negado, ele não gostava de poeira e barulho. Comecei a passar mal, meu estômago estava embrulhado e com aquele cheiro maldito dentro da cabine, com certeza iria vomitar, ele se tocou e parou em um posto para ir ao banheiro. Melhorei um pouco depois de lavar o rosto e respirar ar puro.

Voltamos para o caminhão e na cabine lhe perguntei se o sanduiche não estava passado, ele me disse que comprou fresco e que o lugar fazia o melhor salame de carne de cavalo da região, foi o suficiente para mim abrir a janela em desespero e vomitar, o vento não estava ao meu favor e aquilo veio de volta no meu rosto, foi horrível, ainda me lembro do cheiro azedo de vômito de carne de cavalo. Nunca poderia imaginar que se comia carne de cavalo no velho continente.

Eu não tinha visto para entrar na Espanha, não era como hoje, parte da União Européia, a moeda não era o Euro tampouco, era a Peseta, a coisa era um pouco mais complicada. Optei por entrar no "sapatinho" como se diz no Rio de Janeiro, e literalmente comer o país pela beirada entrando por cidades minúsculas fronteiriças para não ser identificado. Entrando de carona no caminhão passava incógnito e sem problemas, a outra vantagem é que já chegava com um local evitando desconfianças da população; muito pelo contrário, as pessoas se mostravam muito amigáveis e na maioria das vezes de bom humor, pelo menos naqueles tempos, hoje a coisa deve estar muito diferente.

SITUAÇÃO DESAGRADÁVEL

Viajar de carona sem dinheiro pelo mundo nem sempre é um mar de rosas. Depois de alguns meses a saudade da família, dos amigos, da cidade onde você cresceu, da comida que você está acostumado, do idioma que você fala, entre outras coisas, começa a pesar. Até mesmo quando viajava pelo Brasil afora, sentia saudades do meu Rio de Janeiro, dos bares com pagode ao vivo regado com muita cerveja e mulheres bonitas, das praias cariocas que tem uma energia diferente de qualquer outra no planeta, da maneira descontraída e ensaboada do carioca da gema, com o seu carioquês carregado de gírias e malícias no linguajar. Tudo isso me fazia falta, mas encontrava refúgio na aventura e na beleza dos novos lugares explorados, nas novas amizades e na autoconfiança de que tudo daria certo, afinal de contas, naquela altura do campeonato, eu não tinha mais nada a perder.

Assim foi feito, de vilarejo em vilarejo, de cidade em cidade eu avançava em direção a Madrid sem me preocupar quando iria chegar; no caminho vendia umas pulseirinhas aqui, outros colarzinhos ali, e ia juntando algum trocado para eventuais emergências de percurso. Já não usava a mesma tática de pedir carona em posto de gasolina, percebi que muita gente pedia carona na estrada mesmo e qualquer um que parasse eu subia mesmo que fosse um pequeno trecho entre cidades ou vilarejos.

Certo dia, sentei na beira da estrada à espera de uma carona para qualquer lugar que me tirasse dali, estava há horas de pé e nada de alguém parar, isso as vezes acontecia, mas nunca durante tanto tempo, a gente aprende paciência mesmo que não queira. Finalmente um carro parou, feliz da vida perguntei ao motorista, um senhor de aparencia sobria e distinta, muito bem vestido por sinal, se estava indo para Madri; ele respondeu que não, mas poderia me dar carona até a cidade seguinte e eu aceitei, como era tarde, planejava dormir no albergue da juventude local, se é que existia um na tal cidade. Como sempre, iniciei a conversa perguntando de onde ele era, que logo foi me respondendo que era de Catalão, uma região da Espanha, com um sotaque horrível de se entender, principalmente para mim que estava começando a aprender. A comunicação não estava muito boa, até chegar um ponto que não havia mais o que dizer, ficamos ali parados mudos por muito tempo, sem graça eu somente olhava para ele de vez em quando e sorria e ele fazia o mesmo.

Certo momento, quando olhava a paisagem pela janela, senti a mão do indivíduo tocar a minha perna, então percebi do que se tratava, mesmo não aparentando, o velho era gay, madeira de lei mesmo, fiquei puto, pedi que paresse o carro para que pudesse descer, se não a porrada iria comer solta ali mesmo. Amedrontado, ele parou e eu desci. Depois que a raiva passou, me dei conta que estava numa estrada deserta, escura e no meio de não sei aonde. O que fazer? A única opção era continuar andando até encontrar alguém que parasse para me acudir, o que era muito improvável dada às circunstâncias.

Estava realmente com muita raiva, ficar ali, no meio da noite, sem pai e sem mãe, como dizemos no Rio, com fome, sujo da jornada calorenta e empoeirada de beira de estrada e sem saber exatamente onde estava ou para onde ir. Então tive vontade de rezar, mas eu era ateu, apesar de ter uma educação católica em casa. Olhei para o céu estrelado e me perguntei se Deus realmente existia. Me dei conta que se existisse, não poderia ser descrito ou definido e eu estava olhando para ele naquele exato momento...

Ser sozinho é como andar de bicicleta, você aprende aos poucos, encontra o equilíbrio e vai deixando os outros para trás. Eu estava aprendendo a ser sozinho desde que caí na estrada, viajando pelos estados brasileiros, mas sair do meu país, do meu continente na condição que eu saí, sem dinheiro e só com a passagem de ida, não é para qualquer um; eu sabia que iria encontrar dificuldades, mas não poderia prever os desafios que a jornada iria me reservar, aquela experiência inusitada com o velho da carona, jamais havia ocorrido no Brasil, talvez por causa do perfil dos caminhoneiros de lá, sujeitos broncos e machistas na sua grande maioria; mas enfim, desafios são provações a serem vencidas, conquistadas. Na capoeira a gente aprende isso, desistir jamais. A gente cai, levanta, sacode a poeira e volta pro jogo; por isso mesmo, o capoeirista angoleiro joga muito perto do chão, se cair, a queda é mais suave e a recuperação muito mais rápida.

Caminhando a noite pela estrada deserta, meu único companheiro era aquele céu cintilante salpicado de estrelas, o barulho dos grilos e a penumbra da escuridão. Não havia desespero, muito pelo contrário, eu sabia que tudo daria certo, e que para cada problema sempre haveria uma solução, então o melhor a fazer seria relaxar e esperar alguém parar para poder sair daquela situação. Não deu outra, depois de horas esperando, um motorista de caminhão parou no acostamento e me deu carona até a próxima cidade.

Cheguei na província de Cáceres, ainda na Espanha, o lugar não deveria ter mais do que 20.000 habitantes, hoje uma cidade grande. Já era de dia e eu estava exausto, não tinha dormido a noite inteira e havia caminhado muito antes da carona. Fui logo procurar o albergue da juventude, meu lugar preferido onde quer que eu chegasse durante minhas viagens. Consegui uma vaga, fui logo tomar um banho quente, e olha a decepção, não tinha chuveiro, o banho era de banheira, fui perceber isso mais tarde, muitos países europeus ainda não tinham o hábito do chuveiro naquela época. Tive que esperar a banheira encher, tomar meu banho, esvaziar a banheira, encher outra vez para poder enxaguar, uma maratona. Cheguei no meu quarto e desabei na cama, não deu tempo nem de comer algo antes de cair em sono profundo.

Acordei no outro dia já na hora do almoço, fui direto para a cozinha comunitária e havia uma galera cozinhando uma paella, comida típica espanhola de frutos do mar. O cheiro de camarão e temperos locais impregnavam minhas entranhas, estava morrendo de fome; fui logo elogiando o cozinheiro e fazendo amizade com o pessoal. Claro que eu estava me convidando para almoçar com eles, ofereci contribuir com dinheiro para as despesas e eles toparam. Comi como um desesperado, nunca fui muito adepto de churrasco, mas peixe e frutos do mar...durante o almoço a galera me disse que iriam conhecer o centro da cidade, e que o centro histórico era belíssimo com suas ruas, praças e arquitetura peculiar, eu não sabia, era uma cidade turística, bonita e interessante, então eu me convidei para acompanhá-los nesta descoberta.

PROVÍNCIA DE CÁCERES

Quando chegamos notei uma mistura romântica árabe gótico renascentista de uma cidade originalmente romana. Ali tinha muita história, fiquei imaginando aquelas batalhas medievais conquistadoras por aqueles lugares. Depois de caminhar a pé pelas ruas e praças da cidade, decidimos tomar cerveja em um café na esquina. O papo estava animado, mas eu estava curioso e queria desbravar o resto da cidade. Nos separamos e saí sozinho procurando um lugar para expor meus artesanatos e vender algumas pulseirinhas para recuperar a grana do almoço e garantir a minha janta. No final da tarde, encontrei um lugar para expor meu trabalho na rua, armei meu paninho hippie no chão, coloquei ali ordenado minhas pulseirinhas, brincos e colares de missangas e logo algumas pessoas começaram a se aglomerar fazendo perguntas para comprar. Consegui vender algumas peças, até a chegada de um policial nas imediaçoēs. Notando a presença dele, achei melhor não descobrir se era legal ou não vender ali, então por precaução, achei melhor recolher o material exposto, antes que o "rapa" chegasse.

Fiquei por mais alguns dias na cidade, o hostel, ou seja o Albergue da Juventude de Cáceres, estava bastante animado, com gente chegando e saindo diariamente, muitos mochileiros como eu vindos de todos os lugares do mundo, na sua maioria europeus do norte buscando um clima mais quente. Era difícil comunicar com a maioria, visto que nessas alturas ainda não falava o inglês, idioma em que a maioria se comunica no planeta, não importando de onde você vinha. Mal falava o espanhol que ainda estava aprendendo, do que dirá inglês que eu detestava.

A cozinha comunitária era sem dúvida o melhor lugar para conhecer os viajantes, ali era vantajoso para todo mundo cozinhar em grupo, desde que a maioria concordasse com escolha do cardápio, naturalmente. A maioria das vezes eram massas italianas com molho, fácil e rápido de se preparar, ingredientes baratos e todo mundo gostava. Depois do rango, ficávamos ali sentados nas mesas da cozinha conversando e trocando informaçōes sobre vários lugares e qual seria o itinerário da próxima aventura. Também era um lugar de paquera, azaração, sabe como é, isso não pode faltar em nenhuma cultura e eu, como bom latino de sangue quente e brasileiro, não poderia fugir da regra, mas sem falar o idioma a coisa ficava bastante difícil ou quase impossível; fazer o que né, tinha que me conformar e aprender idiomas o mais pronto possível, se não, iria ficar só na saudade das lindas mulheres brasileiras, aliás, mulher bonita era difícil de se ver por ali, no Brasil, elas estão por todos os lados.

Os hostels são lugares interessantes, se conhece na sua maioria, gente jovem de todos os lugares do mundo, normalmente são pessoas descoladas e com um alto senso de liberdade e algum desapego ao materialismo de consumo exagerado, são minimalistas. Para essas pessoas, as prioridades são outras e isso fazia, e continua fazendo sentido para mim. Sempre achei que se eu fosse milionário, nunca compraria uma Ferrari do ano, primeiro porque acho Ferrari cafona, a primeira coisa que um "noveau riche" faz quando ganha muito dinheiro é comprar uma Ferrari, não por falsa modéstia, mas porque em vez de comprar eu alugaria, e se fosse um carro de luxo, optaria por uma Lamborghine para tirar onda, mas nunca possuir tal coisa, essa idéia de possuir não me atrai, mas a de usar de vez em quando, claro que sim. Somente um idiota diz que não gosta de luxo. Tem outro probleminha aí, quando você possui muitas coisas caras, fica cada vez mais complicado manter essas coisas.

Os amigos são raros quando somos pobres, quando se é rico, mais raros ainda, nunca se sabe se são amigos verdadeiros ou se estão bajulando para tirar vantagem de alguma forma. Meu irmão mais velho se formou em jornalismo na Bahia, foi trabalhar no mercado publicitário, onde alcançou muito sucesso, com isso, comprou uma bela casa de praia em Buzios no Rio de Janeiro. Sempre reclamava que por mais cuidado que tinha com a casa, sempre tinha problemas com roubos na sua propriedade, daí eu pensei: porque não alugar uma casa de veraneio quando sair de férias? Assim não terá mais problemas como manutenção e segurança do imóvel, além do mais, quando se compra uma casa de veraneio, você tem sempre que passar as férias no mesmo lugar. Alugando, você tem muito mais opçoēs de destinos e menos dor de cabeça com despesas e segurança. Quando se tem dinheiro sobrando, é melhor alugar do que "ter". Com certeza vai pagar muito menos imposto de renda entre outros benefícios. No meu caso, como não tinha dinheiro para alugar e muito menos para comprar, optei pela liberdade de viajar pelo mundo sem me preocupar com as minhas posses, elas eram mínimas e estavam sempre comigo, para mim essa é a teoria da filosofia do minimalismo. Possuir somente o que for necessário, o resto só serve para curtir por um tempo, afinal de contas, só se leva dessa vida, a vida que se leva...

CULTURA FORTE E CONTAGIANTE

A Espanha é um país fascinante, uma das coisas que marcou a minha memória foi a presença forte da música e da dança em todos os lugares que conheci, principalmente a influência do estilo Flamenco com sua energia, elegância e sensualidade.

A forte influência dos Gitanos deixaram marcas inesquecíveis na minha memória, assim como a culinária (carne de cavalo a parte), talvez porque eu tinha um pouco de cigano andarilho e aventureiro nas veias.

Estava na hora de conhecer outros lugares naquele país maravilhoso. Fui para a estrada em direção a Madrid, de cidade em cidade, e no mesmo esquema de sempre, alcancei a maior cidade e capital espanhola. Novamente bateu aquele já tão conhecido e íntimo frio na barriga. As grandes cidades sempre me davam essa sensação, principalmente num país estrangeiro. Aqui eu sabia que não podia vacilar, tinha que comer o mingau pelas beiradas até me acostumar com a grande metrópole. Não tinha a intenção de ficar muito tempo de qualquer forma, mas com tanta coisa para ver, preferi avançar com cautela.

Como sempre, a técnica era a mesma: procurar uma universidade e um hostel para ficar alguns dias. A terceira maior cidade da europa intimidava, mas afinal de contas nasci em São Paulo e fui criado no Rio de Janeiro, não iria dar pipoca para banguelos; o negócio era cair dentro e ver o que o destino havia me reservado naquelas paradas.

No hostel alguém havia me falado que seria legal conhecer o "Barrio de Las Letras", onde se encontrava a famosa "Movida Madrilhena", com seus bares, restaurantes e discotecas. Ficava na Praça de Santa Ana; como o meu sobrenome é Sant'Anna (Francês), achei melhor conferir. Tinha um bairro perto dali chamado Malasanã onde a galera alternativa se reunia para beber e escutar música a noite toda, parecido como o bairro da Lapa no Rio de Janeiro; ali sim, foi o meu lugar preferido, mas não deixei de conhecer lugares super doidos como o Centro de Artes Reina Sofía, com suas obras de Pablo Picasso. O mais loco de todos foi o Museu do Prado e suas famosas exposições de obras de Goya, Boticelli, Caravaggio, Rebrandit, entre outros famosos. Doidera pura era ficar vendo aquilo tudo e imaginando como deveria ser a vida naqueles tempos, hoje os jovens antenados tech dependentes devem estar pensando como seria a vida no meu tempo sem internet.

DROGAS E MULHERES BONITAS

Experimentei cigarros aos 10 anos de idade, roubava guimbas de cigarro do cinzeiro do meu avô, para fumar com o meu primo em cima do telhado da minha casa; não fiquei viciado nessa época, parei e voltei a fumar com 17 anos por influência de amigos, não fumava maconha, mas as vezes bebia demais da conta. Foi na Espanha que pela primeira vez experimentei drogas induzido por mulheres lindas e sensuais, na maioria dos casos. Aquela mentalidade de liberdade, sexo, drogas e rock’n Roll estava na moda nos anos 70’s. Como disse anteriormente, a liberdade é como uma ponte sobre um abismo e sem corrimão; é melhor não se aproximar dos extremos… mas seduzido pelos encantos femininos, cheguei perto demais dos extremos.

Era uma tarde de verão e o sol ainda estava bastante quente lá por volta das 18 horas em Madrid, bebia algumas cervejas com amigos em um bar no Malasanã, aquele bairro alternativo que costumava frequentar. Antes do anoitecer, fui apresentado á uma bela morena de cabelos encaracolados que parecia brasileira, mas era espanhola, os últimos raios de sol ainda reluziam no horizonte refletindo seus raios dourados no brinco que ela usava, seus cabelos dançavam ao sabor da brisa leve e suave que soprava do norte. A música forte flamenca me envolvia os sentidos me transportando para um mundo de sensualidade e desejo incontrolável de estar com aquela mulher. Não conseguia prestar mais atenção no que os outros diziam, estava totalmente imerso naqueles olhos tímidos e naquela boca sensual, não estava apaixonado, era tesão mesmo, fazia tempo desde a última vez que estive com uma mulher tão atraente como ela.

Conversamos por um bom tempo, ela bebia vinho e eu cerveja. O mal de se beber cerveja, é que dá vontade de mijar toda hora, interrompendo a paquera; a pior coisa é beijar com vontade de mijar, a ereção vem com rapidez e o saco começa a doer mais do que a bexiga, a mulher sente que você está ereto e te segura com mais vigor, piorando a situação. Que dilema, se você para o beijo e vai ao banheiro, corta o clima e está arriscado perder a noite de sexo, sabe como é, enquanto você está mijando um barril de cerveja que aparenta nunca terminar, vem uma amiga dela e chama para ir embora, coisas desse tipo, aí já era. Aguentei firme até que fiz a proposta para sairmos dali para outro lugar com mais privacidade, o que ela concordou. Pedi que aguardasse um momento para ir ao banheiro, disfarcei e saí correndo quase mijando nas calças, mijei como um cavalo chucro abandonado e quando voltei, para a minha sorte, ela ainda estava ali, no mesmo lugar bebendo o último gole do seu Marques de Riscal. Saindo dali, não tinha a mínima idéia para onde ir, obviamente não a levaria para uma cama de beliche no quarto do hostel. Perguntei se ela tinha alguma sugestão, já que eu não conhecia a cidade. Com medo que ela sugerisse algum hotel caro, segurei sua mão e disse: “Vamos caminhar um pouco, a noite está tão agradável”, e para a minha surpresa, ela disse: ”Não, meus sapatos me apertam, o que eu preciso mesmo é de uma boa massagem, vamos para o meu apartamento?” Por sorte, ela morava bem perto, e a tarifa do taxi não saiu muito cara, afinal de contas eu era um Don Juan de periferia.

Chegando no apartamento dela, sentei no sofá da sala, ela tirou os sapatos e disse que iria esquentar água para a massagem nos pés, em poucos minutos gritou do banheiro dizendo que a água já estava quente. Me levantei do sofá e segui aquela voz suave e convidativa. Abri a porta e ela estava ali, debaixo daquela espuma com os pés fora d’água cobrando a massagem. Me aproximei sem pressa e comecei a massagear lentamente a planta dos seus pés até ela fechar os olhos de alívio e prazer. Foi naquele momento que ela me ofereceu um “cigarrinho especial para relaxar”, que na verdade era uma mistura de tabaco Samson para cachimbo com maconha. Mais tarde vim a experimentar outras drogas, isso será relatado mais adiante.

Depois de alguns dias em Madrid, achei melhor seguir caminho e por o pé na estrada novamente. Cidade grande pode ser traiçoeira e te prender por muito tempo, sabe como é, conhece muita gente, faz algumas amizades, conhece uma mulher cativante, se apaixona e acaba arranjando um emprego porque quer casar e constituir família. Não era o meu caso, estava determinado que se isso fosse acontecer, teria que ser para um futuro muito distante e com certeza não seria agora na Espanha.

Sempre é complicado sair de um lugar que se gosta e ir para um lugar desconhecido. Sair da zona de conforto não é muito convidativo para a maioria das pessoas, é por isso que os aventureiros nômades como eu se diferenciam dos que nasceram para viver e morrer no mesmo lugar, tudo tem os seus prós e contras. "Pedra que muito rola não cria limo", isso é bom ou é ruim? Alguns dizem que não se pode construir nada quando se está perambulando pela vida, outros dizem que isso faz parte do auto-conhecimento e descoberta do eu interior de cada um. No meu caso, é assim que eu me sentia, iria usar essa ferramenta magnífica de viajar, para o meu desenvolvimento e evolução pessoal. Os hippies da Fazenda Estrela sempre me diziam que a estrada era a maior e mais completa universidade para o aprendizado da vida. No meu caso em particular foi.

Pensando assim, reuni todos os meus pertences que eu tinha na vida, ou seja, uma mochila e meu passaporte, e caí na estrada novamente. Foram muitos os lugares e pessoas que conheci na Espanha, mas o que marcou na memória, foram os lugares que tiveram maior impacto cultural e emocional. Deixar para trás as pessoas que você ama, é deixar sair dos olhos uma lágrima, não são os covardes que choram por amor, mas sim aqueles que não amam por medo de chorar. Dizem que na vida quem perde o telhado ganha as estrelas. É assim mesmo. Às vezes, você perde o que não queria, mas conquista o que nunca imaginou. Nem tudo depende de um tempo, mas sim de uma atitude. O tempo é como um rio, você jamais tocará a mesma água duas vezes. Tinha que continuar trilhando o meu destino, viajando em direção ao norte, e fui parar em Pomplona, justamente no dia da festa de San Fermin.

POMPLONA E A FESTA DE SAN FERMIN

Foi uma surpresa chegar ali justamente no dia da festa, era tanta gente espalhada pela rua usando branco e vermelho, que parecia uma torcida de um time de futebol comemorando a conquista de um título inédito, misturado com carnaval, pelo menos foi essa a sensação que eu tive naquele momento. Caminhando ainda um pouco mais, esperava uma oportunidade para parar alguém e perguntar onde estava localizado o Albergue da Juventude (Hostel) da cidade. Me indicaram que ficava alguns quarteirōes perto dali, mas que seria difícil pegar um ônibus para chegar até lá, já que as ruas estavam fechadas por motivo da festa de San Fermin. Se quisesse chegar até lá, teria que ir a pé com minha mochila nas costas, não tinha outro jeito. Foi o que fiz, o plano era me instalar primeiro, tomar um banho, trocar de roupa, sair para comer alguma coisa e aproveitar a festa.

Caminhava pelas ruas observando as pessoas comemorando felizes, com seus copos de cerveja nas mãos; muitos portavam um tipo de bolsa de couro com um bico preto com vinho dentro, era muito mais prático do que ter que equilibrar copos nas mãos no meio de toda aquela bagunça. Todo mundo parecia estar bêbado, mas não havia confusão e brigas, pelo menos eu não vi nenhuma. No Brasil sempre tem algum problema com brigas quando tem gente bêbada na área.

Estava cansado da viagem e caminhava tranquilo, quando percebo um monte de gente correndo e uma gritaria infernal vindo em minha direção. Fiquei ali parado tentando entender o que estava acontecendo, mas logo me veio a resposta. Um monte de touros soltos correndo pela rua, e as pessoas tentando se proteger para não levar uma chifrada ou serem pisadas pelas bestas enfurecidas. Me afastei do meio da rua e procurei ficar junto a uma parede de um estabelecimento comercial fechado, não tinha para onde correr, pensei em correr para dentro de uma loja ou restaurante, mas havia o risco de trombar com alguém, cair e ser atropelado pela manada, chifrado, ou os dois no pior dos casos. Então, ficar ali mesmo encostado na parede seria a melhor opção. Foi uma situação de muito estresse, via pessoas sendo jogadas ao ar, levantadas pelos touros e me perguntava, que diabos estava acontecendo com todo mundo? Não tinha idéia que aquilo era uma coisa cultural, uma festa! Um tipo de vaquejada de mal gosto. Eu nunca gostei de vaquejadas ou touradas, não acho legal essa coisa de maltrato aos animais, podem discordar se quiserem, mas ao meu ver é covardia odiosa. Como alguém que se diz civilizado, pode se divertir vendo um animal mamífero, como nós, sendo espetado sem piedade até a morte? Nunca entendi! Não respeito nenhuma manifestação cultural onde a crueldade é praticada, quer seja com humanos ou animais, principalmente aos mamíferos. Essa sempre foi e sempre será minha opinião. Pode até parecer radical, mas não abro mão dessa posição, que aliás, me levou mais tarde a aderir ao veganismo minimalista.

Foi intenso minha chegada em Pomplona! Depois daquelas emoções mistas e confusas, fui para o Hostel como era de costume. No outro dia, a cidade não apresentava aquela loucura do dia anterior, parecia quarta-feira de cinzas no Brasil, com uma pequena diferença: as noites continuavam agitadas com muita gente bonita nos bares e restaurantes da cidade, mas não encontrava um lugar apropriado para vender meu trabalho nas ruas, apesar da quantidade enorme de turistas por todo lado.

Era muita distração, principalmente com as belas mulheres. Estava perdendo o foco, a galera do hostel sempre tinha uma coisa para fazer ou conhecer um novo pico na cidade; ora um café descolado, ora um bar muito louco com música ao vivo, ou um boteco com uma mesa de sinuca. Sempre gostei de jogar sinuca nos bares de Vila Isabel e da Lapa no Rio de Janeiro. E quando estava em São Paulo, me enfiava nos redutos mais estranhos da Avenida São João com a Ipiranga no centro da cidade; modéstia à parte eu jogo bem, aprendi com os malandros de lá. Eu não tinha a genialidade de um grande mestre como Rui Chapéu, um baiano caminhoneiro que foi o maior jogador de sinuca que apareceu no Brasil. O Rui nunca perdeu uma partida sem dar vantagem de pontos para o oponente, até ganhou de um Inglês, que na época era chamado de Pelé do Bilhar. No meu caso, eu apostava cerveja ou jantar nos bares noturnos, já o Rui, deixou a profissão de caminhoneiro e sustentou toda a sua família jogando sinuca, aos 33 anos de idade ele já era uma lenda. Eu, no entanto, tive que me conformar em vender artesanato, não tive aquele talento todo, mas jogava razoavelmente bem, dava pro gasto.

Os dias e as semanas foram se passando sem que eu pudesse perceber. É impressionante como o tempo passa rápido quando se está distraído em lugares e pessoas diferentes das que você está acostumado a conviver. Tudo acontecia num ritmo muito frenético, sempre tinha muita coisa para fazer. Já começava a formigar aquela vontade de cair na estrada novamente, queria alcançar meu objetivo de morar e estudar na Sorbonne em Paris. A vida é como andar de bicicleta, para ter equilíbrio, voce precisa se manter em movimento.

O SUPOSTO SEQUESTRO

Portugal e Espanha já tinham um lugar especial na minha memória e no meu coração, foi uma experiência incrível estar nestes lugares, mas estava na hora de "picar a mula". Já tinha economizado uma graninha com artesanatos vendidos para os turistas e me sentia seguro, apesar de ser muito pouco o dinheiro no bolso para seguir meu caminho. Nessa altura das minhas aventuras e andanças, já não tinha medo de nada. Não me preocupava com nada, aprendi que a preocupação é como um passarinho que pousa na sua cabeça, a malandragem é não deixar que ele faça um ninho.

No dia seguinte fui para a estrada pedir carona com uma placa feita de papelão na mão escrito San Sabastian, uma cidade praiana muito perto da divisa com a França. Eu estava louco para pegar uma praia, já estava ficando amarelo e desbotado desde os últimos dias praianos do Algarve em Portugal. Demorou um pouco, mas aconteceu, uma caminhonete com dois casais de jovens parou e eu perguntei se estavam indo para San Sabastian; me disseram que estavam indo para muito perto de lá, mas não para a região das praias. Topei a carona, eles abriram a porta do carro e entrei.

O pessoal era bem animado, pareciam muito descolados, barbudos, cabeludos, pareciam hippies, mas a maneira de se vestir era diferente, usavam roupas negras, botas de couro e cachecol no pescoço; as meninas também, o que me chamou a atenção, é que era verão. Por que estariam usando cachecol? acho que era moda, sei lá...

Entre pedaços de pão broa com queijo e vinho, conversamos sobre muitas coisas até chegar no tema sobre política. Contei para eles que estava "fugindo" de uma ditadura militar, e que era um revoltado por tudo que havia acontecido comigo e minha família por consequência do golpe militar no Brasil. Eles pareciam muito interessados nos meus relatos, prestavam uma atenção fora do normal. Enquanto eu narrava a situação do Brasil, eles permaneciam em completo silêncio, me interrompendo somente para fazer mais perguntas. Perto de chegar ao nosso destino, eles me perguntaram se eu não gostaria de ir a uma reunião de amigos com eles mais tarde. O anoitecer estava se aproximando, não sabia bem o que fazer, se aceitava ou não o convite. Achei melhor aceitar, ficar na estrada a noite não é legal, afinal de contas eles não estavam indo para a praia, provavelmente teria que ficar a deriva na estrada esperando por transporte até o litoral.

Assim foi feito, anoiteceu, saímos da estrada principal e pegamos uma outra sem asfalto, esburacada e tortuosa, parecia que nunca chegaríamos ao destino. Como não havia nada por perto, fiquei inquieto e perguntei: "- Aonde é essa reunião? - Falta muito para chegar?” “- Fica frio, já estamos chegando na nossa comunidade, é numa fazenda não muito longe daqui, em alguns minutos chegaremos", respondeu o barbudo alto de rabo de cavalo e brinco na orelha.

Fiquei imaginando uma comunidade parecida com as dos hippies da Fazenda Estrela no Mato Grosso e me acalmei. Perguntei então se teria condição de ir para a cidade depois da reunião e eles me disseram para não esquentar a cabeça, qualquer coisa eu poderia dormir por lá mesmo e seguir no dia seguinte. Depois de mais de uma hora naquela estrada horrorosa, finalmente chegamos. O lugar parecia a ruína de um castelo medieval romano, misturado com algumas casas simples de estilo espanhol. Logo na entrada do Castelo um choque. Sujeitos armados com metralhadoras montavam guarda na porta do local. Meu coração disparou e pensei: agora estou frito!

Não tinha a mínima idéia que estava entrando em território Basco, e no coração de uma organização conhecida pela sigla E.T.A. (Euskadi Ta Askatasuna). Meus caroneiros eram membros de um grupo armado, clandestino, ilegal e revolucionário, que lutava com a intenção de tornar a região Basca em um país independente. Estava petrificado; notando o meu desconforto e surpresa, eles me asseguraram que tudo estava bem e que eu não tinha que me preocupar com nada. Pensei então que estava na hora de não deixar o passarinho fazer ninho na minha cabeça com preocupação desnecessária. Melhor seria não remar contra a correnteza e levar o barco de mansinho...

Caminhando em direção a entrada do castelo, fui recepcionado por um senhor de barbas grisalhas que parecia ser o xerife da área, sentamos à mesa e meus "colegas" explicaram a minha situação para o chefe, que muito simpático me deu boas vindas e pediu que eu ficasse à vontade no lugar e saiu em seguida. As meninas foram buscar algo de comer e voltaram com mais vinho, pão, salame, queijos e frutas. Eu comia mais de nervoso do que de fome, mas não queria mostrar fraqueza, ali com certeza não era lugar para fracos, tinha que mostrar que eu era filho das favelas do Rio de Janeiro, e que não iria me curvar amedrontado com aquela situação. Ao mesmo tempo, não podia cantar uma de galo, afinal de contas, malandro não quebra, enverga, mas malandro demais também se atrapalha. A conversa se estendeu pela noite afora, já eram 2:30 da manhã, quando eles me mostraram meus aposentos. Tomei um banho e desabei na cama sonolento.

No dia seguinte despertei com canto dos passarinhos e logo levei a mão à cabeça para ver se tinha ninho (rsrsrs). A preocupação tinha voltado, e a curiosidade também. Queria saber mais sobre essa gente, mas ao mesmo tempo queria sair dali com urgência, não queria problemas com a lei e estava doido para pegar uma praia. Fui tomar café da manhã na cozinha comunitária e parecia que tinha muito mais gente do que na noite passada. Fiquei procurando aqueles amigos que me deram carona, mas não os encontrava em parte alguma, me disseram que eles tinham saído em uma missão e só voltariam a noite.

Sem saber muito bem o que fazer, procurei o chefe para agradecer o pernoite com eles e dizer que estava de partida. Pura ilusão, ele quiz de todas as formas me convencer a entrar para o grupo, já que eu vinha de uma ditadura militar e estava sem destino perambulando por aí. Ele dizia que eu precisava ter um propósito nobre na vida, um sentimento de irmandade e companheirismo, e que na comunidade estava a grande oportunidade de fazer história com a independência do país Basco, e que em contra partida ajudaria o Brasil a se livrar do militarismo de extrema direita neo-facista, oriundo do golpe de 1964.

Fiquei numa situação delicada, sabia que se eu entrasse para o grupo, não poderia sair tão cedo, então lhe disse que gostaria de conhecer a comunidade melhor e precisaria de tempo para pensar. Ele concordou dizendo que os treinamentos iriam começar em breve. Achei que ele é que estava "viajando" e não eu. Não iria me juntar a eles nem a pau, muito menos fazer treinamentos, minha época de serviço militar já tinha passado, e entrar para uma organização ilegal, criminosa e terrorista, não estava nos meus planos, fora de cogitação, sem chances! E agora? Como fazer? Me dei conta que eu havia sido sequestrado e recrutado pelo grupo terrorista E.T.A. Isso explicava o por quê de todos na camionete usarem cachecol no pescoço em pleno verão Europeu; era para cobrir o rosto em ação tática, estilo Black Block, mas fortemente armados. Essa foi a primeira grande encrenca, entre muitas outras, que eu tinha arrumado viajando pela Europa de carona e sem dinheiro. Como dizia o personagem de Tom Hanks no filme Forrest Gump: "A vida é como uma caixa de chocolates, voce nunca sabe o que vai encontrar dentro." Assim é viajar de carona, nunca se sabe o que vai acontecer em seguida.

Meus amigos (da onça) voltaram a noite e eu os indaguei porque eles não haviam me informado sobre a organização durante a carona. Eles me disseram que era por motivos óbvios, o grupo era secreto, eles achavam que, pelo meu perfil, eu encaixaria perfeitamente no grupo, e exatemente naquele período eles estavam recrutando novos membros. Ainda adicionarm: “- Mesmo não sendo Basco, você poderá nos ajudar justamente por isso, será um disfarce perfeito!” Uau! Estava mesmo encrencado...

Eu tinha que fazer alguma coisa, não estava bem certo o que, afinal de contas estava caminhando sobre ovos, que poderiam ser cozidos e seriam os meus, se não tomasse muito cuidado. Então era melhor ficar por algum tempo até conseguir uma saída plausível daquela situação.

No dia seguinte, o comandante iniciou os treinamentos de combate corpo-a-corpo, havia alguns com conhecimento de artes marciais como o Karate e Judô. O treinamento era baseado nessas duas modalidades, também treinavam ataque e defesa com facas no estilo Savate Francês. Ninguém conhecia a nossa Capoeira. O Jiu-Jitso Brasileiro ainda não era famoso como hoje. Nos treinos me destaquei pelo uso da Capoeira de Angola, quando me atacavam eu não me defendia bloqueando como no Karate, eu me esquivava de maneira ensaboada, sorrateira, e contra atacava em baixo para desequilibrar o oponente, coisa de capoeirista. Em vez de faca eu usava uma navalha presa entre os dedos do pé; fingia bater em cima mas o meu alvo era embaixo, a fim de cortar, de preferência, o tendão de aquiles, impossibilitando a fuga e facilitando a finalização do oponente. Seria cruel se não fosse um treinamento com armas brancas de madeira.

A regra era pintar as lâminas com tinta vermelha fresca e o primeiro que fosse alvejado, perderia a luta. Em poucos dias eu já era uma espécie de celebridade, até me apelidaram de "Navalha Voadora", imagina se eu fosse Mestre! Na Capoeira Regional nunca passei do cordão verde e amarelo, na Capoeira de Angola não existe o sistema de cordão, que foi implantado na Regional baseado nas artes marciais do oriente.

O tempo foi passando e a intimidade com o pessoal do grupo foi se estabelecendo de forma simples e natural, as pessoas gostavam de mim, acho que elas me achavam diferente, meio exótico, ou talvez até mesmo excêntrico, sei lá, mas gostavam de mim.

Apesar de não concordar com os métodos, por muitas vezes violentos, usados por eles na tentativa de obter a independência da região, eu me restringia e evitava comentários de cunho político, levando a minha estadia mais para o lado pessoal do relacionamento com a comunidade. Fiz amigos, ou melhor, colegas, em que eu realmente curtia no cotidiano. A comida era boa, regada com bons vinhos e música Basca na viola à beira da fogueira durante a noite toda. Desde o primeiro dia me trataram muito bem, e eu acabava me esquecendo que, na realidade, eu tinha sido sequestrado de forma amigável, por assim dizer.

Não me lembro exatamente quanto tempo eu fiquei por lá, mas com certeza foram várias semanas. Não poderia me acomodar, sabia que mais cedo ou mais tarde me chamariam para algum trabalho na cidade e como eu poderia recusar? Tinha que pagar aos meus hospedeiros as despesas com casa e comida, aquela gentileza toda não sairia de graça. Foi assim que comecei a planejar a minha "fuga".

Certo dia inventei que gostaria de ir a cidade comprar algumas coisas de uso pessoal e arranjaria uma maneira de sumir na neblina na primeira oportunidade, sem que eles se dessem conta do que estava acontecendo. A melhor forma de conseguir esse objetivo era conquistar a confiança deles passando a noção que eu estava totalmente inserido na comunidade. O meu problema era como sumir sem deixar vestígios ou pistas de onde eu poderia estar, afinal de contas eu estava em território dominado por eles. Mesmo ciente da missão impossível, eu iria tentar, e foi o que aconteceu.

A SUPOSTA "FUGA"

Era uma manhã ensolarada de uma segunda-feira, os pássaros cantarolavam freneticamente como um presságio para o que estava para acontecer. Alguém batia à minha porta anunciando que um casal estava indo para a cidade e se eu não gostaria de acompanhá-los, já que eu tinha manifestado previamente minha necessidade de comprar algo de uso pessoal por lá. Não poderia levar todas as minhas coisas sem levantar suspeitas, então resolvi deixar todas as minhas roupas no quarto e somente levar minha bolsa de artesanatos, meus documentos e o pouco dinheiro que ainda tinha sobrado, já que não tive despesas na comunidade. Saí literalmente com a roupa do corpo, nem a minha jaqueta de frio pude levar, visto que estava calor e isso poderia levantar suspeitas. Não sabia qual seria a punição para "desertores mal-agradecidos", mas correria o risco nem que isso custasse a minha vida. A adrenalina corria solta no meu sangue, não havia mais o que fazer, era tudo ou nada.

Quando chegamos na cidade, eu disse que queria comprar fumo de cachimbo Drum da marca Holandesa de muito sucesso, usada entre os descolados intelectuais Europeus da época, a mesma marca fumada por John Travolta no filme clássico moderno de Quentin Tarantino, Pulp Fiction. Só que eu não fumava cachimbo, mas apertava o fumo em pequenos papeis de seda. Eles concordaram e me levaram até uma tabacaria local. Enquanto eles olhavam as mercadorias, eu demorava na loja esperando que eles fossem para outro lugar. Entediados com a minha demora, me disseram para encontrar com eles num mercado na esquina da quadra ao lado; eu disse que sim, mas tinha que usar o banheiro antes. Eles foram embora. Fui ao banheiro e vi que aquela era a minha grande oportunidade, uma janela grande o suficiente para escapar por ali. Foi o que eu fiz, subi na privada molhada e escorregadia, e me joguei pela janela para o lado de fora, olhei em volta e não tinha ninguém, notei um caminhão de entrega que se afastava lentamente e pulei na carroceria sem saber exatamente para onde ele estava indo, me escondi embaixo da lona rezando para que ele não fosse em direção da comunidade...

Minha adrenalina estava jorrando pelos poros da minha pele, meu coração batia mais rápido do que nas práticas de rodas de capoeira regional, mas não tinha outro jeito, era uma cartada de blef num jogo de Poker para ganhar ou perder.

Dentro da carroceria o cheiro de sangue e o sacolejo me embrulhavam o estômago vazio de fome. O caminhão havia descarregado uma carga de partes de porcos abatidos oriundos de uma fazenda não muito longe dali, visto que os restos de sangue das vítimas suínas, ainda estavam frescos no chão. Depois de algum tempo, que me pareceu uma eternidade dada às circunstâncias, arrisquei uma olhadela sorrateira na estrada tentando identificar para onde eu estava indo. Observando a posição do sol, notei que estava indo em direção ao norte, oposto ao sul onde estava a comunidade E.T.A., para o meu alívio. Distâncias na Europa não tinham a mesma sensação que eu tinha no Brasil, mudar de país por lá, ao meu ver, era como mudar de estados na terrinha natal. No Brasil existem estados que são muito maiores que certos países europeus. Quando me dei conta, já estava em Bayonne, “cidade em uma comunidade no Sul de França, perto da fronteira com a Espanha, na confluência dos rios Nive e Adour, no departamento dos Pirenéus Atlânticos, contando com uma população de cerca de 42 mil habitantes. Está integrada à região histórica do País Basco Francês, chamado Iparralde. Forma juntamente com Anglet (Angelu) e Biarritz (Miarritze), a maior aglomeração urbana de Iparralde.” (Fonte: Wikipedia ).

FRANÇA FINALMENTE

O caminhão parou em um mercado local, e antes que notassem a minha presença, saí de fininho da carroceria na direção de um Restaurante Café do outro lada da rua. Estava todo ensanguentado, fedendo e faminto. As pessoas olhavam para mim come se eu fosse um zumbi saindo dos cemitérios dos castelos medievais da cidade. Minha aparência era realmente sinistra, cabelos longos caracolados, camisa e calça suja de sangue, imagino o que eles estavam pensando...

Entrando no restaurante, sentei na mesinha do lado de fora, é claro. O garçon se aproximou e me perguntou se estava tudo bem, me olhando de cima para baixo. Expliquei a minha situação e ele me deu algumas dicas importantes de como eu poderia lavar as minhas roupas em uma "Laverie" (lavanderia) na quadra ao lado.

Depois de saborear um belo de um sanduiche de presunto na baguete francesa, acompanhada de uma jarra de cerveja Lager, saí a procura da tal Laverie. No caminho encontrei uma pequena loja onde comprei uma camiseta e uma bermuda para usar enquanto lavava as minhas roupas sujas e manchadas de sangue.

Depois das roupas lavadas, saí a procura de um hostel para pernoitar, ainda pensando no pessoal do E.T.A. E se eles descobrissem meu paradeiro? O que iria dizer sobre o meu desaparecimento, caso fosse descoberto por eles? Já estava arrumando uma desculpa esfarrapada qualquer, tipo: "eu me perdi na volta, arrumei uma carona e sem querer, vim parar aqui "... melhor colar, se não, eu não sei o que aconteceria.

Antes de ir para o hostel, voltei no Café Restaurante para mais uma cerveja, o mesmo garçom de antes me atendeu e me disse que havia contado a minha história para um cliente, e que essa pessoa gostaria de me conhecer. Fiquei desconfiado e perguntei quem era essa pessoa, ele me disse que iria me apresentar em seguida, e me pediu para aguardar. Ele voltou em seguida com um senhor grisalho de aparência simples, nos seus 45 anos aproximadamente; fomos apresentados e esse senhor muito educado e simpático me disse que conhecia o Brasil e que esteve no Rio de Janeiro nos anos 60s e se apaixonou pelo lugar (o Rio de Janeiro nesses anos de ouro, berço da Bossa Nova, ainda era a " Cidade Maravilhosa", hoje em dia... ) e que gostaria de me ajudar.

Sem muitas oportunidades naquele momento, humildemente aceitaria a ajuda, mas o que eu teria que fazer em troca? Ele me disse que era para fazer pequenas tarefas na sua casa, como pequenas pinturas na cerca, cuidar do jardim, fazer o mercado de vez em quando, entre outros pequenos afazeres. Ele trabalhava para o governo local como contador, era divorciado e não tinha filhos, e que precisava de ajuda com a manutenção da sua casa, que não era uma mansão propriamente dito, mas era uma casa grande e difícil para manter sozinho, não estava tampouco afim de pagar trabalhadores formais para isso. Na casa dele havia uma pequena casa de caseiro que estaria disponível sem que eu precisasse pagar aluguel. Saí na chuva, então era para se molhar, e lá fui eu para a casa do sujeito.

Se passaram alguns dias, e a confiança e amizade foram se solidificando. Bayonne é uma cidade bonita e cheia de atrativos que queria conhecer. Meu anfitrião me emprestou uma "Mobilete" que era uma pequena bicicleta de 2 tempos com 50cc, para me locomover na cidade, ele não tinha carro e só usava transporte público (grátis). Era um ônibus chamado Navettes.

Não demorou muito para que arrumasse minha primeira confusão na cidade. Um dia saí para o mercado e o combustível da mobilete acabou, não sabia que a mobilete era movida a diesel e lasquei gasolina para dentro do tanque. O resultado já era de se esperar, fundiu o motor com perda total da dita cuja! Daí eu pensei, lá se foi meu trabalho e minha hospedagem...

Voltei de Navette para casa completamente desolado, não sabia como iria contar para o meu anfitrião o ocorrido. Melhor seria dizer a verdade, uma amizade não poder ser baseada em mentiras, não que eu não tivesse mentido antes em algum ponto da minha vida, mas naquele momento eu já tinha ultrapassado esse tipo de coisa; então, coloquei a minha melhor cara de coitadinho ignorante e contei o ocorrido. Pensei que ele me mandaria embora da sua casa, mas não mandou. Acho que ficou com pena de mim e resolveu me dar uma segunda chance para me adaptar.

Alguns dias se passaram e ele me chamou para uma conversa, ele queria saber quais seriam meus planos para o futuro, e quando seria esse futuro. Eu disse que gostaria de estudar em Paris, na Sorbonne, uma das mais antigas universidades do mundo, mas não tinha dinheiro e estava ilegal no país, nem visto eu tinha, já que entrei escondido em baixo de uma lona na carroceria de um caminhão.

Acho que gostou da minha atitude e coragem e me disse que iria me ajudar. A primeira coisa seria conseguir um visto de entrada no país; ele tinha contatos importantes na cidade porque trabalhava para o governo, e no dia seguinte iria falar com um amigo dele para ver o que fazer.

O dia amanheceu cinzento e não era bom para pintar a cerca ou trabalhar no jardim da casa, então segui para o mercado à procura de produtos para fazer uma feijoada, queria fazer uma surpresa em forma de agradecimento por tudo que ele estava fazendo por mim. A questão era onde encontrar os ingredientes. Sabia que seria fácil encontrar bacon, linguiça, couve, laranja e arroz, mas e o feijão preto e a farofa?

Saí pela cidade perguntando onde eu poderia encontrar um mercado latino americano, mas só me indicavam mercadinhos mexicanos, e sabe como é, a culinária mexicana não tem nada a ver com a brasileira, então tive a idéia de procurar um restaurante cubano, eles com certeza saberiam onde encontrar os produtos certos. A culinária cubana é a mais parecida no mundo com a cozinha brasileira tradicional, talvez pela influência dos escravos que vieram da mesma região da Àfrica, apesar de Cuba ser uma ilha caribenha.

No verão europeu as noites são bastante curtas e o por do sol só acontece lá pelas 8:30 da noite, então eu teria bastante tempo para cozinhar o feijão e servir o jantar as 6:00 quando ele chega em casa depois do trabalho. A casa cheirava feijoada por todos os cantos, os cachorros da vizinha não paravam de latir, seria por causa da minha feijoada? Ha, ha, melhor pensar que sim.

O patrão chegou e foi logo perguntando que cheiro era aquele dentro de casa, parecia até que estava bravo. Disse que teria feito um prato especial brasileiro para o jantar e ele se alegrou com a idéia. Servi o jantar e ele gostou muito, ainda bem. Depois de umas caipirinhas de vodca, pois não encontrei cachaça brasileira, ele me disse que falou com um amigo sobre a minha situação e teria novidades para mim. Fiquei ansioso e perguntei o que era. Ele me disse que eu deveria ir até uma estação de polícia a fim de regularizar o meu visto. Fiquei preocupado, talvez fosse preso por entrar ilegalmente no país, mas ele me tranquilizou dizendo que tudo sairia bem e não tinha nada que se preocupar, pois o amigo dele se encarregaria de tudo. Não tinha motivos para desconfiar e no dia seguinte fui tirar o meu visto.

Chegando no Departamento de Polícia, procurei o tal indivíduo que logo me atendeu, e sem grandes dificuldades, voltei para casa com um visto de turista para 3 meses. Agora sim estava mais despreocupado. Continuei em casa com as minhas tarefas diárias, mas ao entardecer partia para desbravar a cidade maravilhosa de Bayonne. Devagar fazia amizades nos bares e cafés onde encontrava jovens descolados ou alternativos, por assim dizer. Não era fã de pessoas conservadoras, mas evitava os "vida loca" que se drogavam e bebiam muito constantemente, esses caras eram "chave de cadeia" e eu não estava afim de entrar em "roubada"!

Procurei o hostel da cidade, eu sabia que não poderia colocar todos os ovos na mesma cesta contando com aquele trabalho de caseiro, algum dia poderia dar uma zebra qualquer e eu teria que ter um plano B para uma eventual emergência. Conheci um pessoal lá e me disseram que as praias de Biarritz, cidade vizinha, eram muito boas para a prática de surfe, as ondas rolavam de alta qualidade o tempo todo, mas não era uma surftown, mas que valia a pena conhecer. Fiquei doidinho para conhecer o lugar, mas antes tinha que arrumar uma prancha para surfar, onde encontrar tal objeto em uma cidade medieval e sem praia? Pois, é, fazer o que? O negócio era partir sem prancha mesmo e tentar arrumar uma por lá, mesmo que fosse alugada.

Durante a semana me divertia com os malucos do hostel depois do expediente de caseiro, ainda havia tempo para uma "pelada" de futebol, como apelidamos no Brasil os jogos de futebol informais nas ruas dos subúrbios cariocas; ali em Bayonne também jogávamos descalço e sem camisa, eram ingleses, franceses, algerianos, marroquinos, espanhois, e até mesmo alemães, entre outros. Logo depois do futebol, quando não tinha briga séria, a gente se encontrava num bar para a cervejada corriqueira até altas horas da noite. Voltava tarde para casa, suado e sujo, mas estava feliz, era o tipo de coisa que eu sempre fazia no Brasil, só faltava um surfe e uma mulher bonita para completar; mas em breve eu partiria rumo a Biarritz para realizar esse plano.

BIARRITZ - CIDADE DO SURFE E PRESEPADAS

Bayonne é uma cidade realmente interessante, conheci muita gente no Hostel e nos bares jogando sinuca e tomando cerveja com o pessoal, nunca fui muito de tomar vinho, mas em Bayonne aprendi apreciar a bebida fermentada a base de uvas, principalmente na hora da refeição, pão artesanal e bons queijos nunca faltavam, era tão comum no cotidiano Frances, que eu já estava me acostumando. Com o passar das semanas fui aprendendo o idioma, que na minha opinião, é o mais charmoso do mundo. Parecia que eu já havia estado ali no passado, devido à inúmera vezes que tive fortes deja-vu no lugar; não pude contar, mas foram muitos e recorrentes. Sabe aquela sensação que tudo é familiar mas voce sabe que nunca esteve ali? Pois é, pelo menos nessa reencarnação...

Talvez seja por isso que assimilei o idioma Francês com tanta facilidade. Em apenas algumas semanas eu já me comunicava perfeitamente com os locais, não tinha vocabulário suficiente para uma conversação mais elaborada, mas estava aprendendo rapidamente.

Chegou o dia de conhecer Biarritz, estava louco para pegar umas ondas e aproveitar o final do verão europeu. O dia amanheceu claro e perfumado, a grama úmida de orvalho da madrugada molhava meus pés descalços no quintal de casa enquanto aliviava as bolhas na sola do pé, decorrida da partida de futebol descalço com os malucos do Hostel no dia anterior. Observava o céu azul e o dia estava perfeito, brisa soprando suavemente me convidando para um dia na praia, não cogitei, corri para arrumar minha mochila e zarpei para Biarritz.

Uau! Biarritz, finalmente cheguei! Que lugar fantástico, o ônibus me deixou bem no pico de surfe: "Praia Grande", oposto da "Prainha" no Rio de Janeiro, um pico de surfe fora de série. Ali não tinha aquela beleza rústica do Rio, mas tinha uma ótima infraestrutura. Fui logo procurar uma loja de surfe para alugar uma prancha, estava seco para caiar n'água. Não muito longe dali encontrei um lugar que alugava pranchas, peguei uma mono quilha 6"2" e pedi para o cara que me alugou para segurar as minhas coisas até que eu voltasse, assim foi feito e me mandei pro mar. O pico "tava meio crowd" (cheio de gente surfando na gíria carioca) a correnteza me levava para a esquerda. A cada onda que eu pegava, mas longe eu ficava da loja onde aluguei a prancha. O dia estava épico, com direitas lisas e tamanho médio entre 3 e 4 pés. Não sei quantas ondas eu peguei, mas foi o dia inteiro, estava exausto, meu pé ardia e resolvi sair, remando para a areia parei no meio do caminho, sentei na prancha já fora da arrebentação, e notei que meu pé estava em carne viva, a bolha havia estourado com o acúmulo de água durante o surfe, metade da pele já estava dependurada, mas não doía muito apesar da aparência horrível do machucado.

Estava na hora de sair, os dedos estavam murchos, os das mãos também por estar tanto tempo na água.

Caminhando pela praia, notei que tinha me afastado muito do pico original e me encontrava numa parte deserta da Praia Grande, não tinha ninguém por perto, e pensei, como vou fazer para voltar para a loja com o pé naquele estado? Caminhando um pouco mais, dei de cara com uma miragem, aquilo não era real, uma mulher linda tomando sol totalmente nua, seu corpo era escultural, sua pele bronzeada e perfeita não mostrava marcas de bikine, o piercing no umbigo reluzia a luz do sol, seus cabelos longos e ruivos eram ondulados e brilhosos; fiquei maluco, ela era divina!

Na França as praias de nudismo são bastantes comuns, mas eu não estava acostumado com aquilo, estava sem sexo há bastante tempo, aquela visão mexeu comigo, eu tinha que me aproximar e conhecer aquela beldade, o que fazer? Então me veio a idéia infeliz de me fazer de vítima de um acidente de surfe. Comecei a mancar e grunhir de dor me aproximando dela, educadamente, e ainda falando um francês rudimentar, lhe disse: "Desculpe interromper seu banho de sol, mas tive um pequeno acidente e preciso de ajuda!" . Mostrei meu pé em carne viva. Ela se cobriu com uma toalha de praia e eu educadamente virei de costas mostrando respeito. Imediatamente ela se vestiu e começamos a conversar; lhe perguntei se ela morava por ali, e se tinha medicamentos, ela disse que sim, apontando para uma casa no alto de um morro adiante, e que iria buscar. Então eu lhe disse que iria até lá com ela, pura ilusão, queria mesmo era fazer amor no sofá da sala com vista para o mar, é claro que ela não concordou, me dizendo que eu não poderia caminhar. Não insisti, pegaria mal, então ela se levantou e disse: "Espere um pouquinho que já volto". Pensei comigo, é claro que ela não vai voltar, é melhor eu arranjar uma outra maneira de voltar para a loja antes de fechar.

Fiquei esperando enquanto à observava subindo o morro. Assim que ela sumiu de vista, comecei a caminhar devagar em direção a estrada, imaginando como seria fazer amor com ela ali mesmo na praia. Não dei dez passos e vi que ela estava voltando acompanhada de um sujeito enorme, um levantador de peso todo tatuado, daí eu pensei: o cara vai me enfiar a porrada e eu não posso fazer nada com aquele pé machucado, a capoeira não iria me ajudar, nem correr eu poderia; pronto, agora ferrou!!

Quando eles chegaram perto, é que eu pude dimensionar a merda que eu tinha feito. Era o meu fim, escapar de um grupo terrorista é para os fracos, queria ver era escapar dessa!

O suor escorria pela minha testa, mas não era de calor, estava realmente nervoso. O cara veio chegando perto e eu armei a defesa em forma de gafanhoto para ver se impressionava e ele deu risada, e me pediu para mostrar o pé como se eu fosse um papagaio, "dá o pé lôro!" Aos risos, mostrei meu machucado. Sem eu esperar, ele me pegou no colo e me colocou nos ombros como um saco de batatas e começou a me carregar em direção a sua casa, ele era o marido. Ela pegou minha prancha e colocou debaixo dos braços. Claro que eu recusei, mas ele insistiu e continuou andando carregando o "mala", se é que voces estão me entendendo. Nunca pensei que fosse passar por uma situação dessas na vida, mas como iria recusar? Eles poderiam pensar que era fingimento para eu poder me aproximar dela, o que era verdade, então era melhor não testar a minha sorte naquele momento, se fosse no Brasil, eu estaria no mínimo com o nariz e algumas costelas quebradas.

Chegando na casa, ele me colocou no chão e apoiado nele subi alguns degraus da porta de entrada mancando até a sala, onde sentei num sofá de couro gelado. Ali começamos a conversar e contei a minha estória de vítima. Realmente fiquei impressionado com o grau de educação e amabilidade do povo europeu em geral; os franceses gostam muito dos brasileiros e admiram a nossa cultura, não foi diferente dos portugueses ou dos espanhóis, sempre me trataram muito bem. Hoje em dia não sei como seria, visto que os problemas com imigrantes se agravaram muito depois da criação do mercado comum europeu. O tempo foi passando e eu estava ficando preocupado com a hora de devolver a prancha na loja, pegar minhas coisas lá e ainda ter que voltar para Bayonne. Pedi que chamassem um taxi, mas eles disseram que me levariam até a loja de carro e mais uma vez não fiz nenhuma cerimônia para aceitar, o taxi iria me custar uma fortuna!

Chegando na loja, me despedi dos meus mais novos "amigos", dizendo que dá próxima vez que voltasse a Biarritz, iria procurá-los. Assim que eles partiram, saí com o meu pé enfaixado e minha mochila em direção ao ponto de ônibus que me levaria de volta para Bayonne; estava exausto, faminto e coçando o corpo inteiro porque não tinha tomado um banho de água doce ainda.

Cheguei em casa aos cacos, corri para o banheiro, tomei um belo banho de banheira, tomei um copo de leite e fui dormir pensando em tudo o que tinha acontecido naquele dia...

No dia seguinte acordei tarde para as minhas tarefas diárias como caseiro, as pernas doíam, os braços mais ainda pelas remadas na prancha de surfe do dia anterior, meu pé porém estava melhor, mas ainda precisava de cuidados. Não sabia como iria dar conta do serviço, era uma segunda-feira, dia de trabalhar no jardim, tarefa mais cansativa de todas, e eu naquele estado deplorável pós-surfe fora de forma. Mas não podia "amarelar", estava em falta com o patrão por causa da Mobilete que eu fundi o motor, aquele era o único trabalho que eu tinha, não poderia dar mole.

Depois daquele dia cansativo, eu precisava relaxar, ainda mancando por causa da bolha no pé, fui para um bar tomar cerveja e bater papo com a galera local. Encontrei alguns conhecidos e entre um copo e outro, contei o que tinha acontecido em Biarritz na seção de surfe, o pessoal ria as gargalhadas, já influenciados pelo efeito do álcool e sei lá mais o que... enfim, a noite suave e agradável me convidava a mais uns goles e o papo foi rolando até altas horas com um pessoal muito animado como sempre.

DEJA-VU

Os dias foram passando rapidamente, e o outono estava para chegar. Percebia, aos poucos, que as árvores começavam a perder suas folhagens verdes, adquirindo uma tonalidade vermelho-amarelado, o ar bem mais fresco se fazia sentir no final da tarde. "Na meditação, o homem progride como as estações do ano. Ao começar sua prática está no outono, onde caem as folhas e desmantela a árvore que plantou pela vida. Então progride para o inverno, onde se depara com o frio de sua sombra interior, mas aprende a hibernar no silêncio da mente. Então segue para a primavera onde surgem as flores do espírito e finamente alcança a luz e o calor do verão e nele permanece", já dizia um Xamã dos Lacotas. Aquele sentimento que a hora de partir estava se aproximando e que como as estações do ano, teria que acontecer mais cedo ou mais tarde.

Meu sangue rebelde e aventureiro estava mais uma vez me convidando a me jogar na estrada sem um destino pré-determinado, mas o que eu queria mesmo era desbravar outras regiões francesas antes de chegar a Paris. Bayonne e Biarritz me proporcionaram momentos inesquecíveis, havia alguma coisa que me dizia que eu já conhecia essas cidades sem nunca ter visitado antes, talvez em outra reencarnação. A quantidade de "deja-vu" era enorme, lugares, pessoas, situações, tudo era incrivelmente familiar, mas nunca estive nestes lugares, como pode ser tal coisa? Até mesmo o idioma, com três meses na França já dominava fluentemente o idioma daquele país, não tinha outra explicação, a não ser a minha tremenda atração pela cultura e história desse país, ou ter vivido nestes lugares numa vida passada.

Em Bayonne tive as minhas primeiras experiências com as famosas boulangerie, padarias que no Brasil se assemelham a Confeitaria Colombo no Rio de Janeiro. Quem já esteve lá, conhece a qualidade excepcional de sua cozinha, principalmente dos doces finos. Os pães e doces locais de Bayonne eram simplesmente divinos, sabia da fama extraordinária da culinária francesa, mas nunca iria pensar que a minha experiência gastronômica impactante começaria nas padarias, nem mesmo a experiência de ter sido envenenado quando criança com remédio para ratos numa padaria no Brasil, poderia me afastar daqueles doces e pães maravilhosos...

A França teve uma forte influência na minha vida, mas jamais poderia imaginar a intensidade e a força com a qual ela o faria. Nesse país eu conheci o céu, mas ao mesmo tempo, me abriu as portas para o inferno. Nunca poderia imaginar as reviravoltas entre altos e baixos que passei por lá. Eu me achava de certa forma, invencível, era jovem, forte, corajoso e não tinha nada a perder, a não ser a própria vida. A sensação de que não tinha deixado nada para traz fazia-se presente o tempo todo, meus sentimentos eram o aqui e o agora, sem olhar para traz, estava aprendendo a praticar o desapego, estava identificando o meu eu interior como uma dualidade taoísta fenomenal, tudo vibrava como uma acenoide permanente, ora positiva, ora negativa, luz e sombra, felicidade e tristeza, dia e noite, certo e errado, nascer e morrer. Naquela época eu chamava isso de devaneio filosófico do Taoísmo. Hoje as pessoas dizem que você é bi-polar; o "certo" é que precisamos estar equilibrados nessa dança entre o caminho que escolhemos para ir de encontro ao nosso destino, e os nossos atos para alcançar tal meta.

"Não é a morte que me importa, porque ela é um fato. O que me importa é o que eu faça da minha vida enquanto a minha morte não acontece, para que essa vida, não seja banal, superficial, fútil e pequena", já dizia Mario Sergio Cortella.

SUL DA FRANÇA

Com o outono se aproximando, resolvi que estava na hora de encarar a estrada outra vez, fui me despedindo dos amigos que fiz nesta região basca da França e preparando a minha próxima aventura. Então, numa manhã de domingo resolvi que iria conhecer melhor o sul da França e parti para a estrada.

A primeira carona que consegui foi para Marselha, cidade grande com muitas coisas para fazer, mas por algum motivo não me impressionou tanto para ficar mais tempo, e retornei para a estrada depois de alguns dias na cidade.​

Antes de chegar a Marselha, passei por Nîmes e Montpellier, cidadezinhas muito interessantes e bonitas, mas como nada de realmente importante acontecia, ia trocando de cidade com a mesma frequência que trocava de cuecas, ou seja, todos os dias eu estava nem um lugar diferente, até chegar em Nice, quando tudo mudou.

Conheci um português que me disse que havia um trabalho que pagava muito bem numa fazenda fora da cidade. O trabalho seria para colher flores numa plantação e não precisava de documentos como a permissão para trabalhar, era um emprego por debaixo dos panos e não havia problemas com a imigração. Topei, partimos de ônibus para uma região bem próxima da fazenda, mas o resto do trajeto o pessoal da fazenda viria de caminhão para nos levar até o local da plantação de flores.

Antes do caminhão chegar, fiquei muito preocupado, o português parecia gente boa, mas tinha uma aparência bastante rude e pude notar várias cicatrizes em seu corpo. Durante a nossa conversa, ele me contou que já estivera na Legião Francesa, famosa por seus guerreiros mercenários e foi por intermédio desses contatos que tinha arrumado esse trabalho. Me veio logo na cabeça a experiência do sequestro que sofri nas mãos dos guerrilheiros do ETA, na região Basca. Definitivamente não queria passar por esta furada outra vez, então fui logo perguntando se esse lugar não tinha nada a ver com algum movimento ou partido político. Ele me disse para ficar tranquilo e que a fazenda era propriedade de um casal de idosos, também de origem portuguesa, e que eles eram muito tranquilos e pacíficos. Além do mais, pagavam bem acima dos valores pagos para trabalhadores ilegais no país. Como era um trabalho sazonal de apenas dois meses, daria para levantar uma grana de respeito para passar todo o inverno sem muitos problemas.

O caminhão chegou e subimos a bordo na carroceria. O pessoal que estava lá era bem simples, roupas sujas de barro, botas de borracha estilo galocha até o joelho, mãos calejadas e unhas sujas de terra. Logo comecei a me questionar o que eu estava realmente fazendo ali, eu não aparentava ser um trabalhador rural, mãos de pianista, vestia calças jeans, botas com salto carrapeta, jaqueta do exército alemão que havia comprado num brechó qualquer, cabelos longos e encaracolados presos em estilo rabo de cavalo e brincos nas orelhas, parecia mais um cigano roqueiro de que um trabalhador rural, e todos me olhavam perplexos.

Tarde demais para voltar atrás, então segui sacolejando na carroceria como todo mundo e esperando o melhor, mas sem ilusão de dinheiro fácil, sabia que iria encontrar uma pedreira pela frente e faria qualquer coisa para ter um dinheiro guardado para quando o inverno chegasse, sempre ouvi falar que o inverno na Europa era brutal e eu não queria estar desprevenido. No Brasil eu poderia dormir em qualquer lugar, mas ali, não poderia correr o risco de dormir na rua no meio da neve.

Chegando na fazenda, fomos levados até o alojamento dos trabalhadores. Lugar simples, um galpão enorme de madeira, mas limpo e relativamente confortável. Havia chuveiro quente e roupa de cama, os quartos eram divididos entre duas pessoas num beliche, muito parecido com os quartos dos hostels que conheci. Fiquei com o portuga como companheiro de beliche no quarto, eu dormia em baixo e ele em cima, melhor assim, o cara fumava sem parar, pelo menos a fumaça ía para cima e não me incomodava muito o cheiro de tabaco natural enrolado com as mãos estilo "joint" Jamaicano. No dia seguinte, as 4:30 da matina nos acordaram para o café da manhã que era pão com manteiga e café com leite, mais nada, as 5:00 da matina o trampo começava...

Quando cheguei no lugar, avistei uma imensa plantação de rosas vermelhas, mas também havia de outras cores, amarelas, brancas e rosas propriamente dito. O lugar era lamacento, uma dificuldade para caminhar, a sensação era aquela de que quando a gente sonha que quer correr, mas tudo acontece em câmera lenta, e voce não consegue sair do lugar. Quando me falaram que o trabalho era colher flores, eu me imaginei com um cesto na mão, caminhando em lugar montanhoso onde se poderia ver os picos distantes cobertos de neve e cachoeiras, numa paisagem colorida e perfumada como eu via nas propagandas de balas suíças. Mas não era nada disso, o lugar era cinzento, lamacento, e não tinha cinquenta tons de cinza, nada sexy. O lugar mais parecia o umbral descrito pelo espírito de André Luiz no famoso livro psicografado por Chico Xavier, "Nosso Lar".

Ninguém me falou que eu tinha que me meter no meio de espinhos e da lama pesada nos pés o dia inteiro, não havia passado duas horas e eu já estava exausto e todo arranhado, apesar das luvas grossas que usava. Ali, pela primeira vez, me dei conta que eu definitivamente não era um trabalhador rural, aquele trabalho era muito pesado, eu não estava acostumado, mas não queria aparentar que era frouxo, o machismo se apoderou de mim e me fez aguentar aquela barra até o final do dia.

No dia seguinte, meu corpo estava todo dolorido, não aguentava dar um passo sequer, os músculos dos braços e das pernas estavam em pandareco, parecia que eu havia feito aquela caminhada de 36 kilometros quando estava no exército, as minhas costas então nem se fala, estava moída. O português me falou que era assim mesmo e que depois de alguns dias eu me acostumaria, ele era um cara duro e havia passado por isso antes. Me deu alguns comprimidos para dor e lá fui eu mais uma vez colher aquelas malditas rosas espinhudas, não era nada como eu havia imaginado...

Fiquei nesse trabalho durante algumas semanas, consegui economizar algum dinheiro para viajar, arrumei minhas coisas e parti para Nice, cidade grande no sul da França. Chegando lá, como de costume, fui para o hostel local, na esperança de arranjar algum contacto para trabalho. A cidade estava cheia de imigrantes marroquinos e algerianos de origem Árabe, não foi muito difícil me enturmar com eles; talvez por causa do meu tipo físico, tenho linhagem genealógica dos Mouros do Norte da África por parte paterna e espanhola por parte materna, então, ficou muito mais fácil o relacionamento com eles. No hostel fiquei sabendo de alguns restaurantes árabes perto dali e no dia seguinte já fui almoçar no primeiro que encontrei. Como já dominava o idioma francês, conseguia me livrar das perguntas em árabe que eles me faziam, assumindo que eu era um deles logo no primeiro contacto. A culinária Árabe sempre me atraiu bastante, desde os deliciosos restaurantes de comida Árabe que conheci em São Paulo.

Logo conheci um marroquino que me disse conhecer um trabalho que pagavam muito bem, e que não checavam os documentos de permissão para trabalhar, os famosos trampos por baixo dos panos. O trabalho era plantar mudas ao longo das estradas numa empresa de paisagismo local. Como sempre o caminhão vinha e recolhia os trabalhadores e os transportava diretamente para o local de trabalho. Era muito comum na época essa prática entre os imigrantes e as empresas que precisavam de mão de obra barata e braçal. O trampo era bastante pesado, tínhamos que cavar buracos gigantes e plantar árvores nas estradas, e eu pensando que iria plantar mudinhas de flores para enfeitar os jardins nas entradas dos municípios e pequenas cidades. Como eu era inocente e sonhador!... Logo, logo caí na real e descobri que colher rosas espinhudas era muito mais fácil que cavar buracos e plantar árvores nas estradas debaixo do sol.

Como tudo na vida, a gente vai se acostumando. Eu sabia que se aquilo não me matasse, sem dúvida eu ficaria mais forte. Aquele trampo era melhor para desenvolver a musculatura corportal do que qualquer academia de ginástica moderna de hoje em dia. O que eu queimava de gordura diariamente, era para botar inveja em qualquer dieta pós-moderna dos noveau-riche de plantão atual.

E assim fui levando a vida, não tinha muito tempo para romance ou disposição para uma vida cultural noturna, o que sempre me seduziu; o negócio ali era trabalho duro de peão, acordar cedo e dormir cedo, só isso.

Eu tinha vontade de conhecer Cannes, sempre ouvia falar do charme da cidade e de seus famosos festivais de cinema, consegui guardar mais dinheiro e parti para o sonhado destino.

Cheguei em Cannes ao anoitecer, a cidade logo de cara me agradou, lugar bonito e muito rico, ali parecia que todos eram milionários. Pessoas bonitas, bem vestidas, lugar limpo e organizado, coisa de ricos, supostamente. Fiquei algumas horas perambulando pelas ruas, apreciando a bela paisagem do por do sol na água fria da praia de areia escura, muito diferente da minha Copacabana maravilhosa, mas tinha o seu charme especial. O que mais me chamava a atenção eram os hotéis e cassinos luxuosos por toda a orla. Queria entrar em um deles para ver como era, e se eu tivesse sorte, ver alguma celebridade do mundo do cinema, como o sueco Ingmar Bergman, meu cineasta favorito na época. Filmes como “The Seventh Seal", na cena onde a morte joga xadrez com um sujeito na praia ficou gravada na minha memória para sempre, ou ver Liv Ullmann, que atuou no filme "Persona", onde ela faz o papel de uma atriz que de repente esquece o script e fica muda por causa de um estresse emocional. Claro que tudo isso não passava de uma fantasia da minha parte. Imagina, eu não tinha nem roupa para entrar num ambiente como aquele. Usava calça jeans, botas de couro, jaqueta do exército alemão, comprada numa loja de roupas usadas, e aqueles cabelos compridos encaracolados presos em forma de rabo-de-cavalo que deixavam aparecer um brinco cigano na minha orelha direita, jamais me deixariam entrar naqueles cassinos frequentados por pessoas super ricas, bonitas, e bem vestidas, o que nem de perto era o meu caso.

Como Cannes era muito rica e cara, acabei ficando em um bairro suburbano chamado La Bocca, mais perto do aeroporto, ali foi mais fácil fazer amizade no hostel e conhecer melhor a região.

Os dias foram se passando e sentia a necessidade de conhecer ainda mais o litoral francês. No hostel ouvi falar de Luxemburgo, mas não era o técnico de futebol brasileiro, era um país vizinho da França que faz fronteira com a Alemanha e a Bélgica. Dizem que é o menor país do mundo, mas que tem a maior riqueza per capita do planeta. Não possui litoral com praias bonitas, mas com certeza reluzia como ouro aos meus olhos gananciosos daqueles tempos. Esse país seria o meu próximo destino, mas antes, tinha que conhecer melhor a Riviera Francesa (Saint Tropez, Monte Carlo e toda a Côte D'Azur). Sem dúvida, a Riviera Francesa estava na mira, e assim parti para mais uma aventura, para desbravar esses lugares maravilhosos.

A França é tudo de bom, eu acho que já vivi aqui na minha última visita no planeta Terra. Minha afinidade com estes lugares na França é fora do comum, logo que cheguei em Saint Tropez me apaixonei pelo lugar, me hospedei no hotel Sube, bem em frente a marina. Embaixo havia o Café de Paris, lugar muito agradável e com preços razoáveis, afinal de contas eu tinha trabalhado muito duro e merecia essas férias mais refinadas e confortáveis. Nada de luxo, mas muito legal o pico. A noite saí para um passeio na promenade, uma espécie de calçadão de Copacabana, muito menor, porém super charmoso. No Café de Paris conheci algumas pessoas que na maioria eram turistas mais abastados do que eu. Me chamavam para programas caros e eu não aceitava, dizia que estava cansado e que havia acabado de chegar do Brasil, uma viagem longa, sabe como é né... Provavelmente eu era o único duro ali, curtindo uma de turista internacional estilo VIP (Very Important Poor), e ninguém precisava saber disso.

Passei alguns dias ali, nada de extraordinário a não ser o visual e a vibe do lugar. Se rolasse um romance seria melhor, mas não aconteceu, fiquei um tempo sozinho admirando aquele lugar e já pensando na hora de vazar dali para Monte Carlo.

Monte Carlo é como se fosse um "bairro" do principado de Mônaco, que na verdade é um país independente e faz parte do mercado comum europeu. A única coisa que eu sabia sobre Monte Carlo eram os cassinos e as corridas de fórmula um. Minha estadia ali foi muito curta, lugar caro e sem muito o que fazer, a não ser jogar nos cassinos, que não era a minha praia.

Decidi então ir para Paris, fui para a estação de trem e comprei um ticket só de ida, não queria ir de carona, o tempo estava mudando e começando a ficar mais frio, o outono se fazia presente com as folhas começando a mudar de cor, e os dias mais amenos. Sabia que logo logo o inverno chegaria e eu não queria chegar em Paris em pleno inverno.

A viagem foi tranquila, foram 7 horas de puro entretenimento, belas paisagens e culinária peculiar no trem, que por sinal, era muito confortável e silencioso. Naquele dia peguei gosto em viajar de trem, as minhas aventuras de carona e mochila nas costas estavam chegando ao fim, já começava a mostrar sinais de cansaço, e afinal de contas já sabia como arranjar dinheiro trabalhando, sem precisar vender meus trabalhos de artesanato, que na verdade dava muito pouco dinheiro. Eu precisava economizar grana de verdade para alcançar o meu objetivo, que sempre foi morar em Paris.

CHEGADA EM PARIS

Finalmente cheguei em Paris, era uma tarde de outono e as folhas das árvores vermelho-amareladas com galhos ressequidos, me davam a sensação de estar mergulhado num quadro de Claude Monet!

Cheguei na estação da Gare du Lest com conexão direta ao metrô parisiense, que conta com 214 quilômetros de linhas, e anualmente, transportam cerca de 1,4 bilhão de passageiros. Ali dentro estava quentinho, mas quando saí, no lado de fora fazia um frio que eu nunca havia experimentado, apesar de não ter neve nem gelo visível na cidade. O vento que batia no meu rosto parecia estar esticando e dilacerando minha cara descoberta, precisava urgentemente de um caxicol, meus pés igualmente gelados pareciam estar dormentes de tanto frio. Fiquei pasmado, não esperava uma mudança climática tão radical como aquela; já conhecia o frio das serras gaúchas ou de Itatiaia nas montanhas do Rio de Janeiro, que chegavam atingir 4 a 5 graus centígrados, mas aquilo ali em Paris era diferente, muito mais frio, Ave Maria!!

Saindo do Metrô fui diretamente para o Hostel do Cartier Latin, o bairro latino bem no coração de Paris.

O hostel era bem ao lado do famoso Moulin Rouge, lugar famoso, símbolo de mistura social e cultural, já que era frequentado por todo tipo de público: pintores, escritores, boêmios, marginais, trabalhadores, artistas, nobres e aristocratas, na área de Montmartre; com mais de 125 anos de história e atualmente com cerca de 600 mil visitantes todos os anos, o Moulin Rouge simboliza a noite parisiense, onde, através do marcante espetáculo de Cancan e clima boêmio, nos remetemos à uma outra Era: a Belle Époque.

Aqui começava uma grande aventura banhada de intrigas, paixão, drogas, bohemia e dramas jamais imaginados ou concebidos antes nas minhas viagens!

Logo no dia seguinte à minha chegada a Paris, saí a procura de roupas de inverno, já que as minhas não eram apropriadas para aquele frio todo. Procurei então os famosos brechós de roupas usadas, já que como sempre não tinha dinheiro para comprar novas. Não muito longe dali, encontrei uma loja de um marroquino que me vendeu botas e casaco apropriados. Voltei rapidamente para o hostel onde preparei um almoço na cozinha comunitária e conversei com outros mochileiros sobre o que fazer em Paris. É claro que havia muitas coisas para se fazer, mas eu estava interessado nas coisas grátis, é óbvio.

Depois de me vestir com uma jaqueta pesada de couro com pele de carneiro por dentro, meias e botas de inverno, e barriga cheia, finalmente estava preparado para correr atrás dos meus sonhos que era estudar em Paris. Não estava bem certo do que eu gostaria de estudar, mas começar pelo idioma seria uma boa idéia. Então fui diretamente para a Universidade Sorbonne coletar informação de como me matricular em um curso básico de Françes.

Naquela época não existia internet com Google, o negócio era escrever, telefonar ou ir pessoalmente para obter a informação necessária. Chegando lá, claro que a decepção foi grande, acesso a universidades francesas é feito através de um dossiê, um conjunto de documentos que inclui informações sobre histórico acadêmico e profissional, cartas de motivação e outros anexos, como comprovante de proficiência em francês e cartas de recomendação, fora o pagamento de uma quantia por semestre, que eu precisaria de um milênio de anos para conseguir, vendendo artesanato. Além do mais, as aulas do semestre já haviam iniciado em setembro, e já estávamos no final de outubro. Fiquei desolado, vi meu sonho mais distante que as montanhas do Himalaia; cabisbaixo, voltei para o hostel sem saber o que fazer.

No outro dia voltei ao brechó do marroquino para comprar mais algumas blusas de frio, caxicol e luvas de dedos unidos, pois as que eu tinha não esquentavam o suficiente, tamanho frio que sentia. Na ocasião, conversando com o marroquino, dona da loja, (marroquinos, latinos e africanos em geral, eram a grande população de imigrantes pobres naquela época, e eles sabiam onde conseguir coisas grátis ou muito baratas em Paris), ele me falou que tinha um amigo Chileno que estudava na Universidade Sorbonne, e não pagava nada, era tudo grátis, daí eu perguntei se ele teria conseguido uma bolsa de estudos, mas ele me disse que não, mas que se tratava de um programa social do governo desenhado para imigrantes indocumentados​​ de baixa renda, então pedi para ele me apresentar esse Chileno e assim foi feito.

Marcamos um dia para tomar café ali bem perto do Moulin Rouge. Era um dia de frio e o céu estava bastante cinzento, era estranho, não via nuvens, somente aquela cor cinzento claro deprimente, que estacionava sobre nossas cabeças. Nunca fui muito chegado no café, então pedi um chocolate quente com aquela camada cremosa branca por cima, naquela época não tinha essas frescuras de hoje em dia com figurinhas desenhadas na espuma. Depois das apresentações informais, tirei as luvas e esquentei as mãos na caneca quente e logo perguntei: "- Como se faz para estudar na Sorbonne sem as exigências formais para admissão?” Ele me explicou que conheceu um conselheiro social que contou como era possível se inscrever no programa para imigrantes, aprender o idioma e a cultura francesa sem pagar nada, e ainda conseguir um visto temporário de estudante, desde que a pessoa não tivesse antecedentes criminais, ou algum histórico negativo no país.

Consegui o endereço do escritório do trabalhador social e já no dia seguinte estava lá com a minha documentação para me inscrever no tal programa. Já inscrito e feliz da vida, parti para uma nova fase na vida. Era um ciclo que se encerrava, e outro que se iniciava. Comecei uma nova era como estudante internacional em uma das mais prestigiadas universidades do mundo; só não dizia para as pessoas que tipo de curso eu fazia, mas também não dizia que era medicina, engenharia ou advocacia. Para inflar meu ego, quando perguntavam o que eu estudava, eu só dizia que era um curso de cultura e história francesa, só isso.

UNIVERSIDADE DE SORBONNE

Os primeiros dias na universidade foram bastante intensos, o curso era fácil, mas tinha bastante material para estudar. Os franceses são muito exigentes quanto a forma correta de escrever e pronunciar o seu idioma, eles tem um cuidado fenomenal para que voce aprenda a forma correta de falar, e sempre estão dispostos a te corrigir, mesmo fora dos ambientes acadêmicos.

Os dias foram se passando e fui fazendo muitas amizades no campus da universidade. Morava numa república que era uma bagunça danada, sempre muitas festas e bebedeira. Como era de se esperar, numa dessas festas conheci a Aurelie, uma francesa loira bonita e com um charme e delicadeza fora do comum. Ela era amiga de um chegado meu da república, companheiro de quarto. Essa mulher veio transformar a minha vida de modo contundente. Eu sempre fui meio galinha e não era de me apaixonar facilmente, mas com ela foi diferente, havia um clima erótico e de romance que eu ainda não havia experimentado igual, uma mulher inteligente e sensual, que me surpreendeu logo no primeiro dia em que a conheci.

Ela era magra, mas com um corpo bem delineado e proporcional, sua pele era macia e suave como a de um pêssego, seus cabelos longos e dourados refletiam a luz do so, que de vez em quando aparecia tímido ao entardecer. Eu estava vivendo um romance em Paris e tudo me parecia surreal. Passeávamos de mãos dadas à beira do rio Sena, no coração da cidade das luzes. Ela conhecia um intelectual de família nobre francesa, que morava nos vãos das pontes do rio devido a problemas de desajuste familiar, e que entrou em depressão profunda, virando mendigo. Ela gostava de comprar uma garrafa de vinho, sentar ao lado dele na beira do Rio Sena e conversar por horas a fio. Um dia me levou para conhecê-lo; sujeito fino, educado e culto, e ao m esmo tempo sujo e maltrapilho. Pássamos horas conversando sobre vários temas, inclusive filosofia e política. Foi quando aprendi o que significava a palavra "clochard", ou morador de rua, homeless, mas clochard era charmoso, e me transmitia a idéia de que todos eram intelectuais anarquistas e desajustados na sociedade. Eu fantasiava tudo que via com aquela mulher ao meu lado.

Aurelie morava com outros dois rapazes em um apartamento no Quartier Latin. Eu pegava o metrô para me encontrar com ela, mas nunca havia entrado no seu apartamento, até que um dia ela me convidou para conhecer o seu lugar. O apartamento era grande, com amplos quartos no modelo antigo parisiense, não havia chuveiro e o banho era sempre de banheira, coisa nova para mim. Os aquecedores em formato de sanfonas me transportavam para uma era quase do século passado, afinal de contas, se trata de umas das mais antigas capitais europeias. Logo abaixo do aquecedor, um mapa da cidade datado de 1223.

Aurelie me levou até seu quarto, sutilmente decorado ao estilo tailandês, eram panos coloridos e estátuas de Buda por toda a parte, e um suave perfume de incenso patchouli no ar, naquela noite eu conheceria o paraíso na Terra.

Eu nunca havia tido uma experiência tão intensa com uma mulher na cama como naquela noite. Ela era linda, inteligente e muito sensual; sabia seduzir um homem e deixá-lo à mercê de suas vontades. Eu não era do tipo de me deixar levar por mulher nenhuma, era tipo garanhão, macho, predador, tipo Don Juan latino lover, conquistador romântico e libriano puro. Não seria qualquer mulher que me domaria facilmente. Mas ela era diferente, tinha um jeito sutil de se aproximar, um olhar maroto regado com enormes olhos cor de mel, e corpo escultural muito bem dosado. Depois da primeira taça de vinho Bordeaux, eu olhava aqueles lábios carnudos e cútis, suave como um pêssego, me convidando para um beijo ardente; cheguei mais perto e a tomei nos braços, curvando-a para traz em pose dominadora. Ela me deixou aproximar, mas não permitiu o beijo, se esquivando de maneira esguia e sorrateira, o que me deixava mais louco de tesão. Se tinha uma coisa que deixava doido, era uma mulher que cedia um pouco e depois se afastava fazendo o jogo do amor interessante e desafiador. Ali, naquela situação, eu não poderia me apressar e por tudo a perder, mas também não poderia esperar passivo que ela controlasse tudo. Pura ilusão, ela controlava mesmo, queira ou não queira, quem decide se o ato sexual irá se consumar é sempre a mulher, e eu sabia disso. Aos poucos ela me deixou beijar e acariciar seus seios por cima da roupa, mas afastou-se outra vez, me dizendo que iria vestir algo mais leve e confortável.

Voltou do quarto enrolada em estilo indiano com, sedas coloridas e perfumadas. Tudo era mágico, no background, música de Ravi Shankar estava no ar, proporcionando uma sensação de mistério e sedução. Depois de dançar em círculos pela sala, se aproximou e me deu a ponta da sua vestimenta para que eu a desenrolasse pouco a pouco de todos aqueles panos coloridos. Para mim era como abrir um presente que um menino ganha no Natal, curioso por saber o que irá encontrar dentro do embrulho. Depois do último pano, contemplei cada curva daquele corpo fenomenal, o piercing no umbigo reluzia brilhante à luz das velas. As pressas tirei minhas roupas e me deitei ao seu lado, beijando-a lentamente e acariciando seus cabelos dourados. Queria fazer amor imediatamente, mas ela me interrompeu, me pediu para desenrolar um enorme rolo de plástico transparente que estava atrás do sofá; sem entender o que estava acontecendo, ela esticou o plástico no tapete e foi buscar uma lata de azeite gigante na cozinha, voltou e pediu que eu derramasse o azeite por todo o seu corpo, ela deitada, mas eu deveria estar de pé. Foi aí que eu entendi que a força da gravidade dava uma sensação de prazer quando à tocava pouco a pouco, os fios de azeite percorriam todo o seu corpo. Depois que eu terminei, ela fez o mesmo comigo, foi simplesmente sensacional. Logo depois fizemos amor a noite toda lambuzados de azeite espanhol escorregando no plástico untado. Incrível essa experiência, e a fama da sexualidade francesa foi confirmada naquela noite.

ÓPIUM E SENSUALIDADE

Depois daquela noite eu não pensava em mais nada a não ser naquela mulher, não conseguia me concentrar mais nas aulas e só pensava na hora que iríamos nos encontrar outra vez. Não estava propriamente dito "apaixonado", mas estava realmente impressionado com aquela experiência, e queria repetir a dose com mais frequência. Afinal de contas já estava sem nenhum romance ou sexo por um longo período. Nos dias subsequentes, toda vez que nos encontrávamos, ela tinha uma surpresa diferente, não gostava de somente ir para a cama e fazer amor a noite toda, tinha que ter uma estorinha fantasiosa. Certa vez se enrolou toda em seda colorida e pedia que eu tirasse o tecido lentamente, mas sem tocá-la, permitindo mais tarde somente o toque por cima dos panos até me enlouquecer de volúpia carnal.

"A volúpia carnal é uma experiência dos sentidos, análoga ao simples olhar ou à simples sensação com que um belo fruto enche a língua. É uma grande experiência sem fim que nos é dada; um conhecimento do mundo; a plenitude e o esplendor de todo o saber. O mal não é que nós a aceitemos; o mal consiste em quase todos abusarem dessa experiência, malbaratando-a e fazendo dela um mero estímulo para os momentos cansados de sua existência, uma simples distração, em vez de uma concentração interior para as alturas". (Cartas a um Jovem Poeta", por Rainer Maria Rilke).

Aurelie era uma "expert" em volúpia, seus gemidos de prazer em francês eram uma coisa de outro mundo para mim. E foi assim, entre experiências eróticas e sensuais que um dia ela me pediu para experimentar o ópio antes do sexo. Ela morou na Tailândia por algum tempo, acho que por dois anos; voltou a Paris depois que seus amigos insistiram em ver a família, mas na verdade era uma tentativa para afastá-la do ópio, que já havia se tornado um vício. Fui saber disso mais tarde no relacionamento, até mesmo confiscaram o passaporte dela para que não voltasse para a Tailândia.

Com o passar dos meses, eu estava cada vez mais adepto à prática de fumar essa droga, ela conseguia pasta pura de ópio afegão com certa facilidade em Paris, e assim fui me viciando de pouco em pouco, mas não ao ponto de não poder mais parar. Na época eu lia muitos livros sobre experiências com drogas de autores como Pablo Neruda, que ganhou um Oscar de literatura fumando ópio e Jack Kerouac, um do líderes do movimento literário conhecido como Geração Beat. Escreveu "On the Road", "Com o Pé na Estrada" em português, livro que seria consagrado mais tarde como a “Bíblia Hippie”. Não era somente fumar por fumar, tinha uma filosofia experimental no ato que não deveria ser vulgar, mas baseada na liberação da mente e da imaginação, aí estava o perigo, porque a grande maioria sai nessa "viagem" para nunca mais voltar.

Nosso relacionamento durou como uns quatro meses, seus amigos que dividiam a casa com ela e também moravam juntos na Tailândia antes de voltarem para Paris, não gostavam de mim, tinham um ciúme doentio dela, e uma vez quase o tempo fechou, eles sabiam que eu era praticante de capoeira e talvez isso tenha sido motivo para acalmar um pouco os nervos, porque coisa boa não aconteceria caso entrassem em confronto físico direto. Foi muito difícil terminar esse namoro, parecia que ela gostava mais de mim do que eu dela, até mesmo sugeriu para que morássemos juntos, mas eu não estava preparado para isso, tinha outros objetivos como continuar viajando pela Europa, livre e sem compromissos como sempre. Casar e ter filhos como ela queria, estava fora de cogitação, e foi assim que nos separamos para sempre.

O meu relacionamento com ela terminou, mas com as drogas infelizmente não. Continuei a experimentar outros tipos de drogas como o haxixe. O haxixe é uma resina extraída das folhas do câhnamo-da-Índia, com efeito direto no sistema nervoso central. Enquanto a maconha contém 1% de THC, o haxixe contém até 14%. É habitualmente transformado em pó e misturado ao tabaco normal para ser fumado em cachimbo. É, em sua maior parte, produzido no Norte da África, Paquistão, Nepal, Líbano e Turquia, sendo contrabandeado para os Estados Unidos e Europa. A faixa da população que usa o haxixe é a mesma que usa a maconha, mas observa-se que esta é mais comum entre pessoas que estão tendo os primeiros contatos com a droga, ou que a usam esporadicamente. O haxixe é mais encontrado entre os já iniciados e fumantes contumazes, que necessitam doses mais fortes da droga. É moldado em pequenas barras ou bolos de cor marrom-escura e seu óleo é bem mais potente.

Não fumava todos os dias, mas de vez em quando fumava com tabaco Sanson Holandez no cachimbo. O uso de drogas não era compatível com a prática da capoeira, e talvez isso tenha me livrado do vício diário no uso. Toda vez que eu fumava me sentia culpado no dia seguinte e de pouco em pouco, fui deixando o consumo diário.

Parece que algumas pessoas tem que passar por certas experiências como parte do aprendizado no caminho evolutivo da sua existência nesse planeta. Pelo menos comigo foi assim. Não me arrependo porque hoje eu entendo que a única maneira que eu tinha para aprender certas coisas, seria experimetá-las na própria carne, se fosse hoje faria diferente, nunca experimentaria nenhum tipo de drogas, lícitas ou ilícitas. Naquela época não havia tanta informação como existe hoje em dia, naquele tempo era considerado charmoso fumar, e para alguns, como eu da geração Marlboro, era símbolo do machismo dos cowboys americanos enraizados na cultura brasileira, através das propagandas espalhadas por todos os lugares. Não era legal, mas pelo menos era melhor do que essa geração Rivotril hipocondríaca de hoje em dia.

SURPRESA OU DESTINO?

O tempo foi passando e eu já tinha alcançado o meu objetivo de estudar e viver em Paris. Aquele sentimento de voltar para a estrada e explorar o resto do continente europeu estava de volta nos meus pensamentos. Na faculdade conheci um português que também gostava de viajar de carona, era daqueles mochileiros descolados que também andava procurando algo que desse razão para a sua existência. Um dia ele me chamou para cair na estrada de carona e me disse: "Mudar dá medo, mas a gente deveria é ter medo de ficar no mesmo lugar ". Isso foi o suficiente para me convencer. Fizemos os preparativos para a aventura da estrada, claro que sem muitos planos ou mesmo roteiro de viagem, foi só despedir dos poucos amigos, arrumar a mochila e partir. O plano era sair de Paris em direção ao norte, pegamos o metrô até a saída de Paris e fomos para a estrada.

Chegando em um ponto mais isolado, já fora dos limites da cidade, conseguimos uma carona com uns alemães que estavam de passagem indo para o norte. Esse meu amigo português me disse que sabia um pouco de alemão e estava se comunicando com eles. Como eu não sabia patavinas desse idioma, deixei por conta dele e fiquei apreciando a paisagem até pegar no sono e dormir. Quando acordei já estava na fronteira com a Alemanha com os policiais pedindo os meus documentos. Fiquei enlouquecido com o português, perguntei a ele porque ele não me acordou antes para me dizer que estávamos à caminho da Alemanha? Eu não queria ir para a Alemanha, os franceses sempre me falavam que eles eram racistas, frios e calculistas, e que eu certamente teria muitas dificuldades para me adaptar a viajar por lá. Fiquei com o pé atrás estando ali naquela situação, investigado pela SS alemão de fronteira! Claro que foi um exagero, e somente mais tarde fui descobrir os meus erros de julgamento estereótipo do povo alemão.

Depois de todo aquele desconforto achei melhor me separar do português, que seguiu caminho com os alemães até a cidade de Munique, mas eu desci antes e fiquei em Füssen, mais ao sul perto da fronteira. Nos arredores desta cidade, peguei carona com um alemão chamado Loffler. Esse cara parecia muito legal, me convidou para tomar um café numa parada de descanso; ele sabia um pouco de espanhol e me contou que era professor de alemão para estrangeiros, e que conhecia muitos hispanos que eram a maioria de seus alunos na escola que ele lecionava. Me perguntou o meu nome, para onde ia, e quais eram os meus planos. Disse a ele que não tinha planos e que viajava como turista para conhecer o sul da Alemanha. Quando eu disse o meu nome ele riu muito, mas achou super interessante meu pai me batizar como Nüremberg, assim mesmo, com trema e tudo. Afinal de contas, Nuremberg é uma cidade alemã um pouco mais ao norte dali onde ocorreu um dos maiores julgamentos da história da humanidade: O Julgamento de Nuremberg, com finalidade de julgar os crimes cometidos pelos nazistas, entre uma série de julgamentos que foram realizados na cidade alemã de Nuremberg, entre 1945 e 1949.

Fizemos uma amizade muito boa, o cara parecia legal e disposto a me ajudar, visto que eu não tinha muito dinheiro para bancar a minha permanência no país. Ele me disse que na Alemanha, assim como outros países europeus havia um curso para imigrantes estrangeiros para aprender o idioma alemão, e ele poderia facilitar a minha inscrição no curso. Claro que topei, seria uma grande oportunidade para conhecer melhor o país e a sua cultura. Ele morava em uma cidade minúscula chamada Sökking e me deixou em un hostel local como eu havia pedido.

Alguns dias depois nos encontramos e ele me ajudou a me matricular no tal curso para imigrantes no Goethe Institut, uma ONG sem fins lucrativos com sede em Munique que estava não muito longe dali.

Neste curso conheci alguns chilenos que estavam fugindo do ditador Augusto Pinochet que aterrorizava a população do seu país desde 1973 quando tomou o poder. Esses chilenos me levaram para conhecer comunidade latina de Munique, ali conheci muita gente que como eu, estava "fugindo" de uma ditadura militar na América do Sul.

Certo dia conheci um peruano muito louco que me deu uma dica, disse que tinha um amigo que havia conseguido uma vaga para estudar em um internato católico grátis, era o famoso Lateinamerika-Kolleg na Guerickestraße 19 , München. Logo depois de terminar meu curso básico do idioma alemão no Goethe Institut, fui aceito nessa instituição de ensino superior. Ali passei momentos incríveis; era tudo grátis, eu não precisava pagar por estadia ou alimentação, estava tudo incluído no pacote para imigrantes recém chegados na Alemanha. A instituição era católica, como o Brasil é o maior país católico do mundo, não tive dificuldades para me matricular com o status de exilado político foragido da ditadura militar sul-americana, como a maioria daqueles latinos que estudavam ali.

DESPERDIÇANDO OPORTUNIDADES

Em vez de estudar seriamente o idioma alemão me envolvi nos prazeres do sexo e das drogas. Havia um clima propício para a indulgência nesses departamentos, as mulheres bonitas sempre foram o meu fraco, as "loirinhas" tinham uma atração e preferência por homens de pele escura, principalmente os morenos latinos de sangue quente e com atitude tipo Don Juan, uma legenda no setor da sedução de mulheres bonitas. Essa combinação de cerveja da melhor qualidade, com maconha barata e mulheres atraentes foi o suficiente para um jovem aventureiro se perder na vida dos prazeres mundanos do momento. As mulheres eram relativamente fáceis de conquistar, algumas vezes eu namorava duas ao mesmo tempo em "ménage-à-trois". Uma dupla de loirinhas lindas, belos "joint" de maconha e uma rodada de cerveja eram uma constante naquela fase de minha aventura; acreditei realmente que estava vivendo no paraíso...

O interessante era que as duas loirinhas se consideravam minhas namoradas, não foi apenas aventura de uma noite. Nós tres tínhamos um relacionamento, saíamos abraçados nas ruas e muitos pensavam que eu era uma espécie de gigolô, o que não era totalmente uma mentira, somente um pequeno exagero, visto que eu não tinha grana e elas me ajudavam em vários setores, inclusive financeiro. Me considerava o típico protótipo do malandro carioca: gostava de capoeira, money e mulheres bonitas.

Sempre gostei de samba e até hoje sou um apaixonado pelos instrumentos de percussão, principalmente o atabaque, agogô, berimbau, pandeiro, surdo, tamborim e tam-tam. Toco relativamente bem esses instrumentos e fui chamado para participar de uma banda de Jazz experimental em Munique. Eu era o cara que dava aquele toque latino no rítimo do grupo. A gente tocava em um bar na Mariahifplatz e ali conheci mulheres fantásticas. Certa vez, conheci uma morena que parecia brasileira, mas era alemã, magra, esbelta, cabelos preto, liso e brilhoso, olhos verdes cor de kiwi; uma deusa! Eu notava que ela sempre estava me olhando, tipo "dando mole" na gíria carioca. Não deu outra, no intervalo fui conferir. Cheguei na mesa dela, estava acompanhada de dois homens e mais duas mulheres, então assumi que ela estava "segurando vela". Mandei um "171" em espanhol para ver se colava, mas ela respondeu que não falava espanhol, daí eu tentei o francês e deu certo; tomamos um copo de Chateau Lafite, vinho caro, pago por ela é claro, e combinamos de continuar a conversa no final da performance da banda. Quando terminou a música ao vivo, fui lá falar com ela, disse que era brasileiro e que estava estudando alemão no Lateinamerika Kolleg, uma escola de padres e ela morreu de rir. Me perguntou se eu queria ser padre, e eu abri o jogo, só estava lá para aprender o alemão de graça, era músico imigrante e não tinha como pagar meus estudos.

Quando o bar fechou, ela me perguntou se eu não queria terminar o papo na casa dela, e que os amigos dela também iriam para lá, eu topei, mas indaguei: “ - Voce mora perto daqui? Eu não tenho carro, voce dirige?”. Ela respondeu: “- Estou com o carro do meu pai, posso te dar uma carona, voce vem?” “- Claro, vamos lá!”, respondi. Quando saímos em direção ao estacionamento, segurei a mão dela e para a minha surpresa ela não correspondeu. Com um gesto descontraído, sorriu e largou a minha mão. Ali mesmo senti que não seria tão fácil seduzí-la. Largando a minha mão, procurou a chave do carro em sua bolsa, apertou um botão e escutei a buzina. Percebi as luzes piscarem de uma Mercedes, daquelas que abre a porta em estilo gaivota, que abrem as portas para cima e não para os lados; fiquei esbabacado, mulher bonita em um carro de luxo, era muita areia para o meu caminhão...

Entrei no carro, olhando para o painel e observando o acabamento daquele carro extraordinário. Comecei a entender a importância que os alemães dão à qualidade quando fabricam algo, é uma coisa cultural eu acho. Mas enfim, o negócio era aproveitar e curtir o momento. Assim que ela entrou naquela nave, pediu para que eu apertasse o cinto de segurança e partiu em disparada cantando o pneu. Para minha surpresa, ela pilotava aquela máquina como uma profissional das corridas de automóvel; comecei a ficar preocupado, ela não parecia estar bêbada, mas dirigia em alta velocidade, talvez uns 140 km por hora ou mais, não me recordo bem. Só me lembro que estava muito preocupado para olhar no velocímetro, que estava fora do meu alcance visual. Além do mais, eu não consegui tirar os olhos da estrada, tamanho era o pavor; minhas mãos seguravam o banco de couro costurado a mão com um vigor que chegava a transpirar. Ela notou o meu nervosismo e me pediu que ficasse tranquilo, que tudo estava sob controle; então, para disfarçar o meu nervosismo, retruquei: "- Cuidado! Voce pode tomar uma multa por alta velocidade". Ela então me disse: "- Aqui nas “autobans” não existe limite de velocidade máxima". Fiquei mas sem graça ainda, pois até então não sabia dessa particularidade da Alemanha.

Era tarde da noite, talvez umas duas da madrugada, ela diminuiu a velocidade, saiu da autoban (freeway alemã sem limite de velocidade), e seguiu por uma pequena estrada escura cheia de curvas, até chegar numa casa grande de pedras que parecia mais um castelo medieval. Estacionou na entrada, e me convidou para entrar, abriu a porta e deslumbrei com o que vi, uma sala de estar enorme, muito bem decorada, rústica, mas totalmente luxuosa. A lareira ainda estava com uma pequena chama acesa, ela me pediu para sentar no sofá de couro vermelho e foi buscar uma garrafa de vinho e duas taças de cristal. Sentou ao meu lado e pediu para abrir a garrafa, levantou-se em seguida e me perguntou o que eu queria ouvir, eu disse o que voce quiser, ela então me disse que era apaixonada por música brasileira, pensei então que iria rolar um samba ou coisa parecida, mas não, para a minha surpresa colocou um vinil de nada menos que Heitor Villa Lobos Bachianas No.7. Uau! aquela mulher linda, rica e culta tinha que ser minha naquela noite...

Depois da segunda taça de vinho, cheguei mais perto a fim de estabelecer uma relação mais física, uma energia mais calorosa por assim dizer. Tentei beijá-la mas as minhas investidas foram rechaçadas com muita delicadeza e educação, mas eu era daqueles conquistadores que adoravam esses jogos românticos, ao mesmo tempo, não queria ser pegajoso e inconveniente, então segurei a onda por um tempo, assim como quem não queria nada urgente.

Os amigos dela chegaram e a festa continuou até as 5 da matina e não rolou sexo para ninguém. O papo era sobre política, música e cinema, meus tópicos preferidos, então fiquei bastante a vontade. O problema era a comunicação com os outros, mas de uma forma geral nos entendíamos, coisa de bêbados eu acho.

Eu estava exausto, tinha tocado no bar durante boa parte da noite, então como quem não queria nada fui chegando de mansinho e me aconcheguei ao seu lado no sofá em frente a lareira, não rolou nem um beijinho, mas adormecemos abraçados naquela noite. No dia seguinte acordei com o barulho do liquidificador na cozinha, ela estava preparando um suco de laranjas frescas para acompanhar o café da manhã. Me levantei e fui ao banheiro lavar o rosto e escovar os dentes com os dedos, já que eu não tinha escova. Chegando na cozinha ela perguntou se eu tinha dormido bem, e respondi que ela tinha sido um ótimo travesseiro e sorrimos ao mesmo tempo.

O café da manhã era composto de vários tipos de pães diferentes, muita variedade de queijos franceses e italianos, café, chá e suco de laranja. Alguns amigos dela sentaram-se à mesa e o papo foi quase todo em alemão, fiquei voando sem poder entender muito, pois ainda estava assimilando o idioma que é muito complicado. Os amigos foram embora e ela me disse que me levaria em casa, muito diferente daquilo que eu estava acostumado, uma outra cultura totalmente oposta do que estava habituado. Já no carro à caminho de casa, ela me disse que gostou muito da minha compania, mas que não estava procurando um relacionamento mas íntimo, além da amizade. Me contou que estava saindo de um relacionamento e que seu ex-namorado, um intelectual jornalista local, havia recém terminado com ela. Mesmo assim me convidou para, no dia seguinte, ir nadar em um clube local. Obviamente aceitei, estava começando a me interessar por ela, era desafiador conquistá-la e isso me atraía.

No dia seguinte ela me buscou em casa e fomos para esse tal clube, o qual não me recordo do nome. Me lembro que era um lugar extremamente luxuoso, e eu, como sempre, sem um puto no bolso. Ela me garantiu que não precisava me preocupar, pois ela iria se encarregar de tudo. Como ela aparentava ser milionária, aceitei com naturalidade, e perguntei: "- Voce vai pagar por todas essas despesas? Tu é rica?”. Ela sorriu e disse que não, mas seus pais eram, e o carro que ela dirigia era do pai, e não dela.

Entramos e ela disse que me encontraria na piscina. Fui para o vestiário masculino, lá me deram um roupão branco bastante alinhado, com um brasão medieval bordado no peito. Guardei minhas coisas no armário de madeira escura, que cheirava pinho, coloquei meu calção de surfe, peguei uma toalha e fui para a área da piscina. Chegando ali, fiquei completamente chocado, as pessoas estavam completamente nuas, era uma piscina para nudistas, eu nunca poderia imaginar tal coisa. Ela não tinha me falado nada sobre isso, conhecia praia de nudistas, mas piscina era novidade, o que fazer? Fiquei na minha e tentei disfarçar com naturalidade aquela situação inusitada, não estava acostumado com esse tipo de coisa, foi realmente uma grande surpresa!

Sem graça, fui em direção a piscina, joguei o roupão na cadeira, tirei o short e pulei na água, mostrando naturalidade. A água estava quente e agradável, logo depois ela chegou, acompanhada dos amigos. Caramba! Que corpo escultural, magra, porém bem delineada e elegante, pele perfeita, bem morena para uma alemã, cabelos pretos que cobriam delicadamente seus seios frondosos. Não conseguia parar de olhar, ao mesmo tempo não queria parecer um idiota machista latino e indiscreto, então disfarçava o olhar comprimentando os outros que estavam com ela, como se não estivesse acontecendo nada de especial, eles não sabiam de nada...

O pior é que eu estava começando uma ereção involuntária dentro d'água, talvez por nervosismo, não sei, mas estava acontecendo, o que fazer? Que situação vergonhosa, não podia nem sair da piscina naquele momento e tinha que fazer de tudo para não ser percebido; o jeito foi encostar na parede da piscina e esperar.

Logo consegui me controlar, me acalmei, relaxei e tudo correu numa boa, com exponeidade, para logo depois ficar perplexo outra vez.

Houve um momento em que algumas pessoas sairam da área da piscina e foram quase todos para o lado de fora pare se jogarem na neve, totalmente nus. Só o vento frio que entrou no recinto já me fez sair de dentro d'água imediatamente e me vestir. Os outros, inclusive minha futura namorada, estavam lá fora gritando e se jogando na neve como alucinados, íncrível! Nunca tinha presenciado nada igual em toda a minha vida!

Uma vez de volta, dentro do clube, os entusiastas "masoquistas" vestiram-se e me chamaram para o bar para uma rodada de cognac Cointreau. O papo rolou até tarde; exausto, voltei com ela para mansão do lago, quando finalmente rolou o romance tão esperado, consumido no sofá de couro vermelho da sala de estar.

CERVEJARIAS HOFBRÄWHOUSE

Os dias e as semanas foram se passando e eu continuava a estudar no colégio interno católico em Munique; eram dias intensos, uma "latinada" incrível, havia imigrantes de quase todas as nacionalidades da América do Sul, a maioria Chilenos fugindo da ditadura pesada de Augusto Pinochet; viviam-se tempos tenebrosos em toda a América do Sul, principalmente na Argentina, Chile e Brasil. No colégio o pessoal fugia do internato a noite, pulando o muro para ir tomar cerveja nas famosas Hofbräwhouse da cidade. Numa noite dessas eu também fui com a galera. Pulamos o muro, que não era baixo, e fomos de metrô até o centro da cidade, não muito longe dali. Chegando em uma dessas bavaria, abrimos a porta pesada, feita de madeira maciça e trabalhada em ferro enferrujado. O lugar parecia ter uns 200 anos, estava cheio, pessoas vestidas com roupas típicas da Bavaria, os marmanjos alemães usando aqueles shorts com suspensólios e chapeuzinho com pena ao lado, as mulheres que serviam as cervejas eram grandes e com seios enormes, que saltavam dos decotes, era impressionante o número de copos (eram verdadeiras jarras de cerveja) que carregavam cheios em cada mão. Aquelas mulheres trabalhavam a noite inteira assim, levando aqueles copos imensos a todo momento, cheios ou vazios, aff! Aja disposição...

As cervejas alemães eram servidas em temperatura natural, não eram geladas como no Brasil. Não percebi que cerveja "quente" sobia mais rápidamente para o cérebro, e em poucas horas já estava totalmente bêbado. Literalmente subi na mesa e dancei com as palmas dos alemães, que se divertiam às minhas custas, gritando "Indiana!! Indianna"!! Isso não foi o pior daquela noite! Quando as portas se fecharam já não sabia mais aonde estavam meus amigos, tinha tempo que eu não me embebedava daquele jeito, sempre tive bastante controle quando bebia, mas aquela noite iria entrar na minha memória para sempre!

Saí do estabelecimento trocando as pernas, já não havia metrô para voltar para o colégio; de qualquer forma, como subiria o muro sem a ajuda dos meus amigos? Decedi então caminhar para casa com o objetivo de ficar um pouco mais sóbrio. No meio do caminho tomei outra decisão errada, levar todos os jornais da caixa que se encontrava aberta na calçada para o colégio. Andei por quarteirões com aquela pilha de jornal debaixo dos braços até o momento que comecei a ficar mais sóbrio; me dei conta então da bobagem que havia feito, fazendo outra bobagem ainda maior: joguei todos os exemplares para o alto, justamente quando a polícia estava passando. Não deu outra, pela primeira vez em toda a minha vida, fui recolhido e preso na delegacia local, acusado de bebedeira e conduta desordenada. Acordei no outro dia com o Padre pagando a fiança para me soltar. Muito envergonhado, voltei de taxi com o reverendo, diretor do colégio, e nunca mais esqueci essa noite...

Jamais contei o que aconteceu para a minha "namorada", estava realmente envergonhado. Desse dia em diante iria me concentrar nos estudos do idioma alemão, esse era o meu objetivo. Os dias foram se passando e descobri que Julia, agora como minha "namorada" oficial, era realmente milionária. Ela sempre me dizia que o dinheiro e o carro eram do pai, mas descobri através de um amigo em comum, que o avô dela foi quem montou um dos maiores conglomerados de indústria de metal pesado do sul da Alemanha. Não gostando das atitudes dos filhos, havia deixado toda sua fortuna como herança para a neta; no entanto, eram os pais que administravam a fortuna no momento. Então pensei: estou rico!! Mas como diz o ditato, alegria de pobre dura pouco.

Julia gostava muito do ex-namorado, um jovem jornalista inteligente que havia terminado com ela pouco tempo antes dela me conhecer; para o meu azar, o maldito cara voltou e ofereceu um anel de noivado. A mulher pirou, não aceitou de imediato, e disse à ele que estava namorando no momento. Daí em diante, nosso relacionamento não era mais o mesmo, eu sabia que ela gostava de mim, mas tinha certeza que gostava mais dele, afinal de contas quem terminou o relacionamento foi ele, deixando-a muitos meses na fossa.

Querendo voltar, Julia entrou em depressão, estava confusa e não sabia o que fazer. Conversamos muito sem chegar a alguma conclusão, até o ponto que encostei ela na parede. Não poderia existir dois tigres em uma só montanha, e ela escolheu o outro. Terminamos o namoro, mas continuamos a nos ver como amigos. Não estava com ela por causa do dinheiro e ela tinha que saber disso. Gostava dela de verdade...

Os dias e as semanas foram se passando, não havia mais encontros frequentes, e aos poucos ela foi se afastando, até ao ponto em que não mais nos falássemos. Foi mais uma decepção amorosa, entre muitas. Me considerava um conquistador de corações, mas não conseguia reter nenhum para um relacionamento mais sério. Além do mais, ainda não estava preparado para formar uma família, não era a hora de pensar mais nisso; melhor seria concentrar nos estudos do alemão e seguir adiante.

Ainda fiquei chateado por um tempo, mas nada melhor do que outro relacionamento para preencher o vazio deixado por um amor frustrado. Havia perdido uma grande oportunidade de ser feliz e rico, ou diria, ser rico e feliz?

Passei um ano estudando e saindo com várias mulheres diferentes. Uma vez mais, namorando duas ao mesmo tempo. Como na experiência anterior, saíamos os tres juntos e as ménages à trois eram fenomenais. Nesse relacionamento específico, não era somente sexo, éramos amigos de verdade, e a coisa ficou colorida com o tempo. Quando saíamos abraçados em público, eu moreno abraçado com duas loiras bonitas, uma vez mais parecia um cafetão de um bordel local. Acho que era assim que muitos alemães me viam, mas enfim, eu não estava nem aí, estava realmente realizado, pelo menos sexualmente falando. Permaneci nesse relacionamento a tres até o momento que conheci Phyllis, uma Americana que veio mudar minha vida radicalmente para sempre, coisas do destino, acredito eu.

Uma noite estava tocando numa banda latina de jazz de um amigo meu, quando percebi que havia uma ruiva ao fundo que não tirava os olhos de mim. Vendo que eu havia percebido, ela desviava o olhar como se não fosse nada. Nunca tinha namorado uma ruiva, faltava uma nas minhas aventuras amorosas. Ela era bonita, cabelos encaracolados vermelhos e olhos verdes alaranjados, bem diferente do que eu já tinha visto, sobrancelhas estilo Frida Kahlo, e poucas sardas no rosto. Quando veio o break, fui lá me apresentar como de costume. Ela estava só e perguntei se ela falava espanhol, ela disse que sim e fui logo me apresentando: "- Meu nome é Sant'Anna, posso me sentar um pouco"? Ela respondeu: "-Sim, claro! Que legal, músico e ainda se chama Santana!” Dei risada pensando que ela talvez estivesse sendo sarcástica, mencionando o grande guitarrista Carlos Santana, um dos ícones no festival de Woodstock nos anos hippies.

Por falar em hippies, esse era o estilo dela. Vestia um vestido longo e colorido com estamparia florida, mas delicada. No pescoço carregava um xale vinho sobre os ombros. Olhar maroto, mostrava um semblante de menina, mas pude perceber que era uma mulher madura na idade. Nunca iria imaginar que essa mulher seria minha futura esposa.

Tudo começou com um simples olhar! Naquela noite eu havia perguntado se ela falava espanhol, pois ainda não me sentia seguro para manter uma conversa em alemão, eta idioma difícil de se aprender! Quiz me exibir e falei que falava 3 idiomas fluentes, Português, Espanhol e Frances, e que ainda estava estudando o Alemão em uma faculdade cristã local. Perguntei se ela falava outro idioma além do espanhol, e para minha surpresa e humilhação, ela disse naturalmente que dominava 11 idiomas! Uma vez mais pensei que fosse uma piada sarcástica, mas era verdade; filha de diplomata cubano-americano, nascida em Miami nos Estados Unidos, havia morado em uma dezena de países europeus, inclusive na Rússia. Phyllis era professora de russo para os Alemães; além do Inglês, Espanhol e Russo, dominava uma série de idiomas do leste europeu, como Húngaro, Eslovêno, Tcheco e outros que nem vou listar aqui. Simplesmente humilhou!...

Foram inúmeros encontros até decidirmos juntar os trapos em Munique, na Alemanha. Até então não havíamos casado, mas morávamos juntos em um pequeno apartamento de um quarto no centro da cidade.

O tempo foi passando e o relacionamento se aprofundando cada vez mais, ela era uma pessoa inteligente e culta, mas não sabia muito bem lidar com os amigos. Ela vivia reclamando que seus amigos, principalmente os alemães, não à consideravam muito bem, na verdade até desprezavam-na por ser Americana de origem latina.

Com o tempo o grau de insatisfação com a vida e o cotidiano local, a levou ter a ideia de irmos morar juntos nos Estados Unidos. A princípio resisti, pois nunca fui muito fã desse país, achava eles meio cafonas e com mania de grandeza; mas por fim, acabei aceitando a proposta. O problema era a documentação, não tinha visto e nem grana para a viagem, mas ela garantiu que não haveria problemas, pagaria tudo e se fosse preciso casar comigo só para garantir o visto permanente, ela o faria. Mesmo ciente que eu gostava dela, mas não o suficiente para constituir uma família naquele momento, um belo dia compramos a passagem e fomos para Miami, na Flórida.

E.U.A. - A GRANDE SURPRESA

O primeiro dia em que pisei em solo Americano, fiquei abismado! Tudo o que vi era muito diferente do que jamais havia visto nas minhas viagens. Claro que os países são diferentes, mas essas diferenças não eram tão marcantes como a dos Estados Unidos. A primeira coisa que notei foram as ruas e as auto-estradas (freeways) gigantes e muito largas, carros grandes, e as luzes das cidades, tudo parecia muito iluminado.

Na Europa em geral, ao menos naquela época, as pessoas deixavam as ruas escuras, com pouquíssima iluminação, na intenção de economizar na conta elétrica. Até mesmo Paris, com seus monumentos e mesmo sendo conhecida por ser ultra iluminada, não chegava aos pés das cidades Americanas. E não estou nem falando de Las Vegas no estado de Nevada, onde vivo no momento; hoje em dia, cidades como Shanghai ou Dubai são mais iluminadas, mas mesmo assim ainda perdem para Las Vegas.

A noite as freeways pareciam rios gigantes de luzes brancas chegando, e luzes vermelhas se afastando, comparado a um rio de lavas. Podia perceber o poder e a força desse país, milhares de carros, edifícios gigantescos e pessoas por todo o lado, fiquei realmente impressionado!

Miami naquela época era uma cidade diferenciada, a população na sua grande maioria de origem hispana, parecia desafiar o resto do país. Terra onde Al Capone morou nos anos 30, apesar de manter seus negócios em New York e Chicago. Na década que vivi em Miami, no entanto, a máfia Cubana era muito influente, mantinha o controle dos expatriados cubanos soltos das prisoēs e liberados para chegar em solo americano, com o intuído de obter residência legal imediata com status de refugiados. Nessas levas de imigrantes, chegavam em Miami milhares de cubanos, entre eles criminosos perigosos, liberados por Fidel Castro, que inclusive serviu de tema para a criação do filme ”Scarface”, com Al Pacino no papel principal.

Fui morar em Miami Beach em 1979, na Meridian Avenue. Era a rua mais arborizada da cidade, as árvores frondosas cobriam as ruas por inteiro, formando um tunel de rara beleza. Alugamos uma casa de 2 quartos e começamos uma nova vida. Como ela havia prometido, nos casamos, normalmente são os homens que fazem esse tipo de promessa.

O tempo foi passando e eu estudando o idioma inglês com intensidade e determinação. Sabia que se não estudasse, ficaria somente falando espanhol, visto que era o idioma mais falado no local. Miami Beach nessa época era habitada na sua grande maioria por aposentados, que fugiam do frio do norte dos EUA. Ficavam hospedados em hoteis baratos na orla, estilo Art Deco. Pegar um ônibus era um terror, eu não tinha carro, as filas eram grandes, pois os velhinhos não dirigiam mais; ficavam horas para subir ou descer do ônibus, um saco, mas eu entendia que um dia, eu também ficaria velho.

A criminalidade era grande, mas eu fui criado no Rio de Janeiro, aquilo ali, com Scarface e tudo, não era páreo com a Cidade de Deus ou Caxias na baixada fluminense no tempo do esquadrão da morte. Os idosos me incomodavam mais do que os criminosos, tinha vergonha em admitir isso, mas era a minha verdade da época…

O tempo foi passando e eu aprimorando meu inglês. Consegui me formar no curso ESL (English as a Second Language), o que já me dava o status de "fluent english speaker”, ou seja, a fluência no idioma, completando assim, o domínio do meu quinto idioma, já que falava fluentemente o Português, Espanhol, Frances e Alemão. Havia completado mais um ciclo e já queria mudanças. Resolvemos então fazer uma viagem para o Brasil, queria mostrar as belezas do meu país para minha esposa, estava gostando dela de verdade, ela era muito parceira, mas ainda não sentia firmeza para ter filhos com ela.

Quando chegamos ao Brasil, fomos visitar Foz do Iguaçu, lugar maravilhoso! Phyllis ficou encantada com tanta beleza tropical, com gente amigável, simpática e hospitaleira; foi a primeira experiência dela no Brasil, e havíamos começado muito bem nossa viagem.

Não poderia imaginar que essa viagem fosse mudar totalmente os nossos destinos! Depois de Iguaçú, seguimos viagem rumo ao Rio de Janeiro, lugar onde passei a maior parte da minha juventude. Chegando no Rio, ela ficou ainda mais impressionada, a beleza do Brasil e principalmente dessa cidade de povo simpático e acolhedor, fez a cabeça de minha primeira esposa. Queria passar mais tempo e descobrir mais coisas do Brasil, foi daí que resolvi levá-la para a capital do surfe brasileiro: a cidade de Saquarema no interior do estado do Rio de Janeiro.

Foi ali onde tudo mudou. Phyllis decidiu que não voltaria mais para os Estados Unidos. Ela nunca teve uma experiência parecida, nunca foi tão bajulada na vida, era bonita e "Americana"! Meus amigos surfistas assediavam-na sem parar, mas mantinham o respeito por minha causa. Sabia que se virasse as costas por um minuto, tinha valet rondando na área como abelhas no mel. Sabia que mais cedo ou mais tarde eu viraria corno, só restava saber que tipo de corno eu seria. Não tínhamos filhos, então, não poderia ser corno "Papai Noel", aquele que sempre volta por causa das crianças; não era do tipo "Cebola", aquele que fica chorando depois do chifre cortado; nem tampouco poderia ser do tipo "Elétrico", aquele que te avisam sobre a traição e diz "tó ligado!”

Então, antes que acontecesse o inevitável, lhe disse que queria morar no Hawaii e minha mudança para lá seria em breve. Ela discordou, dizendo que o Brasil era o melhor lugar do mundo, e que não queria voltar para os Estados Unidos, mesmo sendo para o Hawaii.

Decidimos então que havia chegado o momento de nos separarmos. Dei o green card brasileiro para minha ex-esposa, e ela me deu o green card americano. Nos divorciamos amigavelmente, sem cobranças; afinal, não vivíamos uma paixão desenfreada, ou um amor sólido e bem definido, simplesmente gostávamos um do outro. Tínhamos uma amizade forte, onde rolava sexo, só isso.

Acredito que os encontros entre pessoas são, muitas vezes, determinantes na vida delas. Carl Jung já dizia: "O encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação". Foi o que ocorreu conosco. Quando a conheci, não poderia imaginar que passaria os próximos quarenta anos da minha vida vivendo nos Estados Unidos, e com ela também não foi diferente.

Após nosso divórcio, Phyllis conheceu outro Brasileiro, teve filhos, montou um restaurante vegano e uma escola de Inglês em Saquarema. Viveu muitos anos por lá, até que, com o passar dos anos perdi o contacto e nunca mais ouvi falar dela.

Enfim, mesmo ficando no ar uma sensação estranha logo após nossa separação, acredito mesmo que era nosso destino. Foi mais um ciclo que se fechava na minha vida, e outro que se abria! Novos rumos, novas aventuras... E assim, decidi ir para o Amazonas antes de me aventurar no Hawaii.

DE VOLTA PARA O AMAZONAS...

Além da minha separação recente, e pelo fato de minha família nunca me ter dado muita bola, mesmo voltando ao Brasil após anos e anos fora, decidi que seria uma boa idéia me afastar de tudo e de todos. Resolvi então que voltaria para o Amazonas para desbravar a selva e me conectar com a Mãe Natureza.

Na procura de uma ajuda para poder chegar no meu destino escolhido, entrei em contato com um velho amigo, o Antonio Carlos, que tinha um programa de turismo em São Paulo, a TV Tour, que era transmitido pela TV Gazeta localizada na Avenida Paulista.

Não embarquei de imediado para o Amazonas, como planejara. De qalquer forma, a interessante experiência a seguir seria o empurrão para tal. Antonio Carlos me ofereceu uma posição de assistente de produção do programa, e aceitando, passamos a viajar juntos pelo Brasil à fora. E assim, através de minha nova profissão, conheci Fernando de Noronha, uma ilha paradisíaca, tão ou mais bela que o Havaí.

Fernando de Noronha é um arquipélago brasileiro, pertecente ao Estado no Pernambuco. “Formado por 21 ilhas, ilhotas e rochedos de origem vulcânica, ocupa uma área total de 26 km² dos quais 17 km² são da ilha principal e se situa no Oceano Atlântico a nordeste do Brasil continental, há 545 km de distância da capital pernambucana, Recife, e 360 km de Natal no Rio Grande do Norte. Em 1938 a ilha foi novamente requisitada pela União para tornar-se um Presídio Político Federal, destinado "à concentração de indivíduos reputados como perigosos à ordem pública ou suspeitos de atividades extremistas. Em diversos períodos haviam sido recolhidos para lá presos políticos, como os ciganos em 1739, os farroupilhas em 1844 e os capoeiristas em 1890. (Fonte: Wikipedia).

Depois de Fernando de Noronha, voltamos para São Paulo para continuar o trabalho na TV. Durante esse tempo estávamos sempre frequentando feiras de turismo, onde conheci o dono de um hotel que estava sendo construído na selva Amazônica. Ele me ofereceu trabalho no futuro hotel, pois sabia que não seria fácil conseguir alguém com 4 idiomas, que estivesse disposto a morar no meio da selva. Como trabalhava na TV Tour mais por diversão, sem salário, e com a possibilidade eminente de finalmente desbravar a linda selva Amazônica, aceitei a proposta de imediato, embarcando logo em seguida para Manaus, capital do Estado.

Chegando em Manaus fui diretamente para o Hotel às margens do rio Ariaú, em plena selva Amazônica. O hotel era incrivelmente construído e literalmente suspenso nas frondosas árvores nas margens do rio Ariaú, um pequeno braço do Rio Negro. O lugar começou a ficar famoso depois que acolheu o famoso oceonógrafo francês, Jacques Cousteau e sua equipe de pesquisa na região Amazônica. Suites construídas nas copas das árvores eram o diferencial que atraíam as pessoas com o espírito de "Indiana Jones", famoso filme de aventuras em lugares exóticos. O trabalho era totalmente informal, minha função era gerenciar o local, mas como não tinha muita experiência e nem contrato formal, ficou aquela situação onde eu não tinha nenhuma garantia trabalhista. Era a lei da selva! Então procurei fazer amizade com os trabalhadores locais e aprender com eles as nuances e macetes do local.

O lugar era realmente espetacular, a natureza exuberante me fazia pensar que a vida em grandes cidades perdia a importância que normalmente se tem. Uma realidade totalmente diferente, talvez um pouco parecida com a Fazenda Estrela no começo da viajem. Ali se hospedavam muitos norte americanos, franceses, alemães, japoneses, enfim, gente de todo o planeta praticamente. O filme "Anaconda" foi filmado naquela região, quando eu ainda não era "gerente" e o hotel ainda estava em construção.

O tempo foi passando; minha função era receber os hóspedes e ser mais um tipo de “relações públicas” do que um gerente propriamente dito. Eu gostava disso, na verdade eu não queria assumir a responsabilidade de toda a operação hoteleira, principalmente da parte financeira. Preferia deixar essa função com quem tinha mais experiência nessa área, e ficava somente na supervisão das operações, e reportava para o dono.

Eu já previa que essa empreitada não iria durar por muito tempo, tendo em vista as condições precárias de trabalho, além das “24/7” de disponibildade em tempo integral. Praticamente só descansava na hora de dormir. Um belo dia a bomba explodiu. Tudo começou quando recebi Olívia Nilton John, a famosa atriz do filme "Grease", contrasenado com o então famoso ator de Hollyowood, John Travolta. Como hóspede VIP, ela chegou cheia de seguranças truculentos e mal encarados; os caras não saíam do lado dela, tentei ser o cara mais educado e simpático do hotel, dando toda a atenção possível e imaginável para a celebridade Australiana.

Uma bela manhã ela se aproximou de um tanque, onde estava um filhote de peixe boi que tinha sido encontrado sozinho nas margens do rio. Sem a mãe, o filhote foi levado para o hotel para ser amamentado e cuidado, até que pudesse voltar para o rio e sobreviver por conta própria. Olívia simplesmente ordenou para que os seus seguranças removesse o filhote do tanque, e o devolvesse para o seu habitat natural, o rio. Entendi sua preocupação e tentei explicar o motivo do confinamento da pequena criatura aquática, mas não deu resultado; ela mandou prosseguir mesmo assim.

Foi aí que a coisa começou a feder. Quando os seguranças se aproximaram do tanque eu interferi dizendo que não permitiria tal ato, e que minha autoridade no hotel teria de ser respeitada. Como os truculentos dos seguranças não me levaram a sério, passei a mão num "terçado" (facão de cortar cocos) e disse com firmeza: "- Aqui quem manda sou eu! Aqui é Brasil e a lei da selva é que impera!!"

Presenciando todo aquele tumulto e sem entender o que realmente estava acontecendo, outros funcionários do hotel vieram me acalmar. Um deles ligou para o dono, que imediatamente me despediu! E assim foi o final daquela mordomia ecológica na selva Amazônica; mas a aventura não terminaria por aí, era somente o fim de mais uma de minhas presepadas, dentre tantas outras...

A VOLTA PARA MANAUS

Sem perspectiva de trabalho, perambulei pelo centro de Manaus até parar no mercado Adolpho Lisboa, ou seja, o mercadão como era conhecido pelos locais. Construído ainda na era da borracha, com muito estilo arquitetônico na faixada de fora. Dentro do mercado, no entanto, o lugar era caótico, com muita gente carregando mercadorias de todos os tipos, desde eletrônicos à frutas exóticas e peixes do Rio Amazonas. Era uma sujeira e fedentina rodeado de muitas moscas! Notei, porém, que os "gringos" adoravam aquilo tudo, afinal de contas havia muito barulho com os vendedores gritando ao último volume para vender as suas mercadorias.

Dentro daquele caos, percebi uma oportunidade de trabalho. Como tinha conhecimento de vários idiomas, poderia trabalhar como tradutor ou prestar assessoria para os gringos que visitavam o local. Percebi também que havia uma grande procura por barcos que pudessem levar esses turistas para passeios na selva. Investigando ainda um pouco mais, notei que os barqueiros não conseguiam se comunicar bem com os turistas, tinham muitas dificuldades em combinar o roteiro, atividades e principalmente os preços.

Tive uma idéia, porque não recrutar um guia com barco e levar os turistas por conta própria? Poderia me aproximar e oferecer esse tipo de serviço e cobrar em dólares americanos. A taxa de cambio na época era de 4 por 1, ou seja, o dólar valia 4 vezes mais que a moeda local, o Cruzeiro. A inflação era alta, portanto, poderia aproveitar o momento e cobrar em dólar.

Assim iniciei meu próprio negócio de turismo, que seria muito lucrativo em todos os sentidos. O único problema era que eu não tinha experiência ou conhecimento suficiente da selva para levar o pessoal. Comecei pagando um guia e um barqueiro para nos levar a lugares mais conhecidos, como o encontro das águas barrentas do Rio Solimões com as águas escuras do Rio Negro, seguido de almoço no barco e por do sol na beira do Rio Amazonas.

Aos poucos fui aprendendo e diversificando os passeios, com percursos mais longos e diferentes opções de serviços. Deixei de levar os turistas tradicionais e me especializei no turismo ecológico e de aventura. Não curtia fazer aquela palhaçada de colocar araras e macacos nos ombros dos turistas para fazer fotos ali no mercado.

Meu lance era procurar jovens aventureiros e oferecer uma experiência mais realista e menos comercial da selva Amazônica. Encontrava minha clientela nos hostels e no porto de Manaus. Muitas vezes me aproximava deles nos bares, tomando cerveja, quando fazia a minha oferta: Um passeio totalmente inusitado e diferenciado dos demais, com roteiros educacionais de visitas às comunidades ribeirinhas, comunidades indígenas e extrativistas de borracha para a extração e fabricação do latex. Meus grupos variavam entre 5 a no máximo 10 pessoas, não queria fazer turismo de massas que viessem a poluir os rios ou desrespeitar a natureza e os habitantes locais. Meu negócio era fazer ecoturismo sustentável, ou seja, uma simbiose onde os locais fossem beneficiados, sem serem explorados, e os aventureiros pudessem experimentar algo que jamais esqueceriam...

AVENTURAS INESQUECÍVEIS NA SELVA AMAZÔNICA

PIRANHAS

Depois de alguns meses, fui aprimorando a minha técnica e montei uma pasta com fotografias e depoimentos com cartas de turistas que já tinham feito o passeio comigo, e sobre as aventuras na selva. (não havia celular nem internet disponível na época). O pulo do gato era oferecer um roteiro diferente dos demais, com preços convidativos, ou seja, barato mesmo, para uma juventude aventureira que não queria luxo, mas sim uma experiência ecológica e realista.

Comecei a amar o que eu fazia, o trabalho era passear de barco por vários afluentes do Rio Amazonas, conhecer a selva e seus habitantes exóticos, os caboclos ribeirinhos, e nativos indígenas de várias etnias.

Com eles aprendi muito sobre a cultura e os costumes locais, conheci mais de 60 tipos de frutas e uma infinidade de peixes e outros animais que eu nem tinha idéia que existissem, como o "candirú" por exemplo; peixe muito pequeno mas perigosíssimo, costuma atacar outros seres penetrando em qualquer tipo de orifício que encontrar, para se alojar e depositar seu ovos. No caso do ser humano, no homen o peixe se aloja no penis, no orifício da uretra. Quando entra, abre uma espécie de mini âncora que só pode ser retirado através de cirurgia. Outro peixe sinistro é o "poraquê" ou peixe elétrico, capaz de dispensar um choque de até 860 volts de descarga naqueles desavisados. Isso sem falar nas famosas piranhas, são 14 tipos diferentes, sendo tres delas altamente agressivas, podendo devorar um ser humano em poucos minutos. Já as piranhas preta, amarela e vermelha, dentre outras espécies, se alimentam de insetos e pequenas frutas que caem na água, e não oferecem grandes perigos aos seres humanos.

Me recordo que uma das coisas que eu fazia, e que aprendi com os locais, consistia em levar um grupo para nadar em águas cristalinas dos igarapés, pequenos lagos de água quase parada. Tirava toda a roupa e ficava totalmente despido, nu mesmo, e encorajava as pessoas para fazerem o mesmo. A maioria eram europeus e concordavam com aquela experiência de liberdade e contato com a natureza. Os europeus praticam muito o nudismo e consideravam isso normal, já os japoneses, nem tanto, geralmente eram muito tímidos. Depois que todos estavam saciados dos banhos, eu voltava para o barco e com todos a bordo reunidos eu dizia: "- Pessoal! Quero confessar que coloquei todos em grande perigo", e todos me olhavam assustados e confusos, "- Esse lugar que estavam nadando agora está infestado de piranhas!!". Sacava do bolso da minha bermuda uns pequenos grãos de uma semente muito apreciado por aquelas piranhas inofensivas, e as jogova na água. Imediatamente dezenas de piranhas começaram a devorar freneticamente, criando uma grande agitação na água. A expressão nas caras dos turistas era coisa para ser filmado, mas eu somente fotografava; a cara deles era de espanto de cair o queixo, ou ficavam vermelhos de raiva, até o momento em que eu lhes contava a verdade. Com toda certeza, uma experiência única que eles se recordariam pelo resto de suas vidas!

A primeira noite que dormi no meio da selva, em um lugar isolado da civilização foi algo espetacular, mas ao mesmo tempo terrível. Aconteceu no município de Manacapuru a uns 80 quilômetros de distância de Manaus. Quando a noite caiu, arrumei minha rede entre duas árvores próximas; confesso que estava apreensivo, para nāo admitir o medo. O barulho ensurdecedor que os animais noturnos fazem durante a noite é uma coisa de outro mundo, só experimentando para saber. Era uma noite quente e úmida, uma sensação abafada onde não havia uma brisa para nos aliviar do calor. O ruído de galhos quebrando a todo momento, dava a sensação de que algum animal de grande porte estava se aproximando do acampamento, talvez uma onça pintada ou um jaguar negro no meio da escuridão; fora os rosnados irreconhecíveis por nós, que estávamos ali pela primeira vez. Com certeza não vinham de um felino de grande porte, pois era muito diferente, parecia que vinham de algum monstro extraterrestre que nos deixava amedrontados até o momento em que nosso guia nos dizia que era somente uma espécie de macaco pequeno, mas que tinha um rugido de um Tyrannosaurus Rex, incrível!!

Naquela noite eu e mais alguns dos meus companheiros de jornada não conseguimos dormir. Além dos ruídos estranhos, calor intenso e abafado, ainda se somava os zumbidos dos pernilongos gigantes e persistentes; se tornava um pesadelo acordado, a única coisa boa era a fogueira que com a fumaça ajudava a espantar alguns mosquitos, e nos dava um pouco de visibilidade no meio daquela escuridão imensa.

Ao amanhecer do dia seguinte, estava tão cansado e sonolento, que mal podia abrir os olhos, mas com muito esforço fui escovar os dentes perto de um riacho ao lado. Quando voltei para tomar o café da manhã, mais uma experiência desagradável, um dos ajudantes do nosso guia atirou uma aranha gigante, magra mas de "pernas" longas, sobre o meu peito desnudo. Entrei em pânico imediato e eles, às gargalhadas, apontando o dedo na minha direção e zombando, não paravam de rir. Enfurecido, parti pra cima dele para tomar satisfação, e a turma do deixa disso, me disseram que era somente uma brincadeira. A aranha, apesar do tamanho, era totalmente inofensiva. Demorei alguns minutos para assimilar a brincadeira de mal gosto, mas como bom malandro, levei na esportiva. Fazer o que?

Essas experiências me ajudaram muito a conhecer essa região cheia de mistérios e compreender melhor a cultura local. Cada vez mais meus conhecimentos sobre a selva se alastravam com rapidez, me proporcionando autonomia no meu trabalho. No começo eu somente acompanhava os guias e traduzia o que eles relatavam no passeio, depois de alguns meses, eu já tinha conhecimento suficiente para contratar capitão do barco no porto, um mateiro, que normalmente era um índio com vasto conhecimento da floresta, ou mesmo um ribeirinho, com muita experiência do local a ser visitado.

Assim o negócio prosperou, eu tinha uma empresa de turismo ecológico e de aventura totalmente independente do governo com suas taxas e impostos. Não tinha documentos ou licenças para operar, era tudo informal. Eu também cozinhava e envolvia os turistas no processo, eles simplesmente amavam. O dia começava bem cedo, as 4:30 da matina no Porto de Manaus; arrumava as mochilas e as redes no barco e zarpava para mais uma aventura na selva. Eu estava faturando cerca de $500,00 a $1.000,00 dólares por dia, dependendo da quantidade de clientes. Normalmente eu cobrava $100,00 por cabeça por dia, com alimentação incluída. Com o câmbio a 4x1, fazia em média, por semana, fora as despesas, cerca de $3,200.00 cruzeiros. Nada mal, bem melhor e mais rentável do que vender artesanatos na estrada.

O DIA DO MACACO

Certa vez acordei pela manhã com uma gritaria tremenda dentro do barco, onde pernoitamos. Era um corre corre para lá e para cá e eu não sabia o que estava acontecendo, até que escutei gritos dizendo" -Pega o macaco! Pega o macaco"!! E pensei comigo: porque? Daí me disseram que um macaco selvagem havia entrado na dispensa da cozinha do barco e roubado vários ovos que seriam preparados para o almoço do dia. Com uma destreza tremenda, o macaco usando o rabo como apoio, se apoiava nos galhos e quando confrontado, partia para o ataque atirando os ovos da cesta que havia roubado, em todo mundo que se aproximava dele, eu nunca tinha visto nada igual. Em pouco tempo, o primata encrenqueiro criou um caos que, para alguns era motivo de risos, e para outros preocupação. Finalmente os ovos se acabaram, e sem mais munição para o ataque, o encrenqueiro sumiu na floresta levando a cesta vazia como lembrança da sua presepada, eu suponho. Finalmente depois dessa lambança, voltamos ao normal mas com muito atraso para a saída do barco que ainda por cima, apresentou problemas no motor. Aqueles dias que a gente não sabe o por que, mas parece que tudo dá errado.

Finalmente o capitão do barco consertou o motor, mas já era tarde para partir em direção ao nosso destino, que era visitar uma cachoeira longe dali. Aliás, na selva amazônica tudo parece que está muito distante de qualquer lugar onde você esteja. Achei melhor adiar o passeio e começar no dia seguinte bem cedo.

No dia seguinte, outra vez a gritaria: -"Pega o macaco!! Pega o macaco" e pensei, que merda é essa? O encrenqueiro havia voltado para roubar, mas dessa vez ele não assaltou a cozinha atrás de comida, ficou sofisticado e assaltou o banco! Sim, isso mesmo, o cara roubou a carteira de um japonês turista, que deixou sua mochila descuidada por algum tempo. O bandido abriu o zíper da mochila e bateu a carteira do Japa, que aos berros, gritava desesperado com a cena inusitada. De cima da árvore, o macaco travesso abriu a carteira e tirou uma nota novinha de $100.00 dólares americanos, e começou a rasgar em pequenos pedaços para o desespero do Japa. Em seguida tirou outra nota que imediatamente destruiu ao ponto de que nem sabíamos o valor. A comoção era grande e o Japa cada vez mais enfurecido, gritava sem parar. Fazíamos de tudo para atrair o bicho, subornando-o com bananas sem sucesso, ou atirando pedras e pedaços de pau para ver se ele fugia deixando de lado a carteira do nosso companheiro turista.

Como se não fosse suficiente o estrago já causado, o primata não satisfeito, pegou o cartão American Express Platinum do sujeito e começou a mastigar o plástico como se quisesse descobrir do que era feito, ou se tinha gosto de alguma coisa interessante. Isso foi o suficiente para que o Japonês ficasse vermelho como um pimentão, e sair esmurrando o vento e chutando tudo que encontrava pela frente do seu caminho, não era para menos! Finalmente um local atirou uma pedra que acertou o alvo, fazendo com que ele soltasse a carteira, fugindo em seguida. Mais uma vez o passeio estava atrasado, menos mal que o bicho não destruiu o outro cartão Visa do Japa, que ficou de mal humor por dois dias seguidos.

O resto do passeio correu tranquilo, a cachoeira era maravilhosa, bem ali no meio da selva onde ficamos por alguns dias. Na volta para Manaus paramos em um bar, construído no meio do rio com troncos de árvores que o fazia flutuar, dando origem ao nome "Flutuante", a todas construções nesse estilo. Depois de muitas cervejas e despedidas, o Japa parecia feliz e lhe perguntei o que tinha achado do passeio. Me disse que foi a melhor viajem que ele já tinha feito na vida, e que jamais se esqueceria desses dias na selva brasileira com nosso grupo, nem tampouco o macaquinho bandido.

Passei vários meses colhendo depoimentos e fotos dos passeios para fazer o meu portfólio, que na época não era um website, mas um simples livro com fotos e cartas de agradecimento e elogios. Com o tempo, fui estabelecendo contactos importantes na selva, conheci lugares remotos e inacessível aos viajantes comuns que visitavam o Estado do Amazonas, entre eles uma cidade perdida com suas ruínas de um povo não identificado, lugar misterioso com certeza, alguns diziam que se tratava de uma cidade construída por Juan Ponce de León, famoso explorador espanhol que procurava a fonte da juventude na Amazônia; outros diziam que era uma civilização perdida e outras estórias malucas sobre o lugar. O fato é que o lugar era mesmo misterioso e aguçava a imaginação dos turistas que eu levava. Afinal de contas, não existia uma agência de turismo que pudesse oferecer tal passeio, esse tipo de aventura, somado ao contato com tribos indígenas distantes da civilização e contato rústico com a natureza fazia com que o meu negócio florescesse com rapidez. O dinheiro começou a inchar a minha conta bancária, nunca antes havia feito tanta grana em tão pouco tempo, e tudo estava bem, pelo menos por enquanto...

PERDIDO EM PLENA SELVA

Nem tudo foi um mar de rosas, apesar das maravilhas e momentos inesquecíveis. Um deles, que marcou o resto da minha vida, foi a experiência de estar perdido na selva.

Tudo começou no dia em que partimos para uma região longínqua denominada Parque Nacional de Anavilhanas, uma unidade de conservação brasileira de proteção integral da natureza, localizada no estado do Amazonas, com território distribuído pelos municípios de Manaus, Iranduba e Novo Airão, abrangendo cerca de 400 ilhas. O parque situa-se no rio Negro, próximo ao parque nacional do Jaú.

Por ali, só vai quem conhece, o lugar é um labirinto de ilhas e caminhos fluviais tortuosos, um verdadeiro quebra-cabeças no meio da selva amazônica.

Saímos bem cedo numa manhã ainda escuro, por volta das 4:30, em uma madrugada serena e agradável. Navegamos pelo Rio Negro passando pelo "Encontro das Águas", um fenômeno interessante onde as águas escuras do Rio Negro se encontram, mas não se misturam com as águas marrom barrentas do Rio Solimōes, e segue assim, sem se misturar por quilômetros, dependendo da época do ano. O comandante do barco navegava em direção do maior arquipélago fluvial do planeta, na região de Barcelos, onde se chega a ter 700 ilhas.

Sentado na proa da embarcação, me sentia como se estivesse numa espécie de Titanic Tupininquim; havia amanhecido, e o vento no meu rosto com o sol brilhando no horizonte e cercado de um verde exuberante, me transportava para um mundo desconhecido e fascinante. As margens se confundiam uma com as outras depois de tantas curvas de manobra do capitão. Ali mesmo já estava confuso e não tinha mais idéia de onde estava exatamente naquele labirinto interminável, porém tinha total confiança no capitão que conhecia a região como ninguém.

Por volta do meio dia paramos na margem do rio, para um pequeno lanche, tendo em vista que não deveria encher muito a barriga antes de uma longa caminhada na floresta em direção a um conjunto de cachoeiras. O capitão ficaria no barco, e um mateiro índio nos levaria até o local onde estavam essas cachoeiras exóticas de águas avermelhadas. A caminhada era longa, mais de uma hora até chegar no destino. Nosso grupo era de 10 pessoas, oito turistas estrangeiros, eu e o índio mateiro (o guia). Depois de passados 45 minutos caminhando na floresta quente e húmida, estávamos cansados e sugeri um pequeno descanso que, para minha surpresa, foi negado pelo índio com o pretexto de que faltavam somente 15 minutos de caminhada. Insisti na parada porque havia no grupo um alemão enorme que estava vermelho como um pimentão, e transpirava como se estivesse numa sauna à vapor, o que não era muito diferente. Não havia nem mesmo uma pequena brisa para nos refrescar, eu estava preocupado com ele, poderia ficar desidratado e causar sérios problemas para o grupo; ali não havia atendimento médico imediato, e eu sabia somente os primeiros socorros.

Não adiantou, o índio queria prosseguir a viajem alegando que o tempo era curto e ainda teríamos que voltar antes do anoitecer para o barco. Mas não tinha jeito, o alemão não estava aguentando mais... o nosso guia me disse: "- Vamos embora! Não tenho tempo para discutir com voce, quem manda aqui sou eu!" e saiu andando. Eu gritei, "- Espera! " O danado do Índio ficou irritadíssimo e sumiu na floresta. Tentei correr atrás dele mas não adiantou, ele havia simplesmente desaparecido na neblina. Sem entender o que estava acontecendo, os turistas bebiam água e abanavam o alemão ofegante sentado num troco de uma árvore. Voltei desesperado para o grupo pensando o que fazer, não poderia demostrar pânico por ter perdido o nosso guia, esperava que ele voltasse a qualquer momento, mas não aconteceu, o que fazer? Não tive outra alternativa a não ser dizer a verdade para o grupo, o Índio havia nos abandonado, como voltar para o barco? Nem pensar em cachoeiras, naquele momento eu só pensava como voltaria para o barco antes do anoitecer.

Nunca passei um medo de tamanha intensidade, achei que todos morreríamos perdidos naquele lugar, doentes, famintos ou talvez devorados por algum jaguar ou jacaré, mas não poderia mostrar descontrole emocional. Eu sabia como sobreviver na selva, havia aprendido isso antes, fui treinado no exército, mas ali era diferente, não conhecia o lugar. Me lembrei que havia marcado a trilha de volta com pequenos cortes nas árvores, era nossa única chance! Comecei desesperadamente a procurar tal marcas, sem sucesso, e o o tempo foi passando...

Por sorte, finalmente encontrei a primeira marca, foi um alívio, mas a segunda ainda foi um problema, não encontrava. Decidi então subir na maior árvore, a mais alta, para lá de cima tentar me localizar. Talvez pudesse encontrar um sinal de fumaça proveniente de alguma casa da comunidade de ribeirinho, mas mesmo que avistasse, teríamos que abrir um caminho na floresta densa na base do facão, o que seria totalmente inviável por causa da distância já percorrida.

Sem avistar nada lá de cima, voltei para o grupo tentando confortá-los, mas eles já mostravam indícios de preocupação perturbadora. Eu precisava encontrar a segunda marca. Procurei, procurei, procurei, até que felizmente a encontrei. Como diz o ditado: "Quem procura, acha!” Aliviado, encontrei a terceira, e assim prosseguimos com a ajuda dos turistas. O alemão estava exausto e não conseguia mais andar, então fiz uma maca improvisada com galhos e camisas para levar o sujeito, que pesava uma tonelada. Com aquele calor dos infernos, íamos nos revezando com a maca, e pouco a pouco íamos caminhando em direção ao nosso barco, que ainda nos parecia muito distante, devido nossos passos lentos por causa do alemão e da procura pelas marcas nas árvores, que não estavam tão legíveis nem fáceis de serem encontradas.

A tarde já estava por se acabar, e a noite se aproximando rapidamente. Precisávamos chegar no barco antes do anoitecer, na paranóia de que ao chegar no local, o capitão não estivesse mais esperando por nós. Era melhor tirar esses pensamentos negativos da minha mente, mas quando se está desesperado e com medo, aí sim, saberemos do que somos feito.

Eu sabia que não podia desistir, e o extinto de sobrevivência era maior do que o medo, Continuamos a jornada procurando as marcas e no processo, de vez em quando, nos deparávamos com animais estranhos e insetos insuportáveis: aranhas gigantes, formigas agressivas de todos os tamanhos, e naturalmente, serpentes venenosas a nos assustar todo o tempo. Por sorte fomos picados somente por mosquitos sanguinários, mas nada grave.

Já anoitecendo, escutei vozes ao longe, e o alívio foi imediato! Estávamos bem perto do barco, comecei a gritar para o capitão que veio em seguida ao nosso socorro. Estavámos capengando exaustos, mas felizes por termos conseguido localizar o barco e nosso capitão. Mais tarde, já alimentados e de banho tomado, dei graças a Deus por estarmos vivos. As vezes precisamos passar por problemas ou episódios de morte eminente para despertar nossa espiritualidade e nossa fé no Criador. É aquela coisa: todo mundo é ateu até o avião começar a cair, daí vem o Deus nos acuda! Uma coisa é certa, nunca mais nos esqueceremos desta aventura, principalmente o alemão do nosso grupo, isso eu tenho certeza!

O tempo foi passando, e as aventuras no Amazonas acontecendo naturalmente sem grandes problemas. Eu sabia que tudo que é bom um dia termina, havia aprendido isso com as filosofias orientais, o Taoismo havia me ensinado a inconstância das coisas no Universo, o conceito Yin Yang do Tao Te King afirma que tudo oscila entre o positivo e o negativo, o masculino e o feminino, a luz e a escuridão, o ativo e o passivo, o alto e o baixo, o dentro e o fora etc... Tudo muda o tempo todo na dança da vida e da morte no Universo Infinito, e isso é uma verdade incontestável.

Eu já estava pressentindo que, a qualquer momento, as coisas poderiam mudar. Como tudo estava ocorrendo bem, era só uma questão de tempo para acontecer algo radical. Sempre foi assim na minha vida. Não deu outra! Certa manhã, fui informado por um guia de selva conhecido, que estava acontecendo uma epidemia de Cólera (Vibrio Cholerae) em todo o norte do Brasil, infectando e matando mais de 2.000 pessoas na região Amazonense, e se espalhava rapidamente pela capital, Manaus. Os turistas, sabendo da situação deixavam de mostrar interesse em turismo ecológico de aventura e evitaram a região. Com a falta de clientes, meu negócio começou a afundar até o ponto de ter que pedir ajuda ao Antonio Carlos, meu amigo da TV Tour, para me conseguir uma passagem de cortesia até Miami, nos Estados Unidos. Nessa altura, já estava totalmente quebrado financeiramente, mais uma vez...

DE VOLTA A MIAMI

"A cada novo dia, a cada momento, temos à nossa disposição a maravilhosa possibilidade do encontro, que traz em si infinitas oportunidades. Precisamos apenas estar atentos", disse Paulo Coelho.

Quando voltei para os Estados Unidos, em Miami, mais uma vez o destino estava selado: Iria conhecer o verdadeiro amor da minha vida, uma pessoa que eu iria me casar, construir uma família, e viver com ela por mais de 20 anos; a pessoa que está comigo até nos dias de hoje. "Você percebe que encontrou a pessoa certa quando olha em seus olhos e enxerga tudo que você precisa." (Bob Marley).

Foi na festa de Carnaval Brasileiro em Miami Beach, na Florida, que conheci Emília. Fui apresentado à ela por uma amiga em comum, a Ana. Nesse dia ela usava uma fantasia de índia Brasileira, exibindo suas belas e longas pernas. Vestuário esse que lhe cabia muito bem, pois é descendente de índio, e filha de Amazonense.

Em Viajem ao Rio de Janeiro, eu e Emilia.

Eu não tinha a mínima idéia de como essa mulher iria mudar a minha vida. O que estaria para acontecer, seria uma cadeia de eventos imagináveis. Quando à conheci, havia completado um curso de 1 ano na Academia de Polícia de Miami, com diploma e troféu de melhor policial graduado, e primeiro lugar na Academia daquele ano. Uma conquista inesperada, ou melhor, esperada, já que sempre achei que em terra de cego, quem tem um olho é rei. Fui criado na malandragem do Rio de Janeiro, viajei o mundo sem dinheiro, não perderia para qualquer mané da academia, não acho que eu era tão bom assim, mas o fato é que eles eram muito ruins, sem preparo ou experiência de vida nas ruas, não eram "street wise", como se diz na gíria americana, então foi relativamente fácil sair em primeiro lugar na avaliação da Academia de Polícia de Miami.

Como havia conseguido esse trabalho como policial em Miami, minha antiga idéia de ir para o Hawaii ficou em segundo plano. Estava vivenciando uma experiência única e inusitada. Aquele sentimento de inferioridade da maioria dos imigrantes nos Estados Unidos havia completamente desaparecido, agora eu estava numa posição de poder e autoridade. Quando eu cheguei nos USA, os Americanos me chamavam "vem aqui!!” Eu botava o rabo entre as pernas, e como um cachorro submisso atendia às suas demandas. Como Policial a coisa era diferente, eu era quem chamava os americanos, "Vem aqui!”, e quem botava o rabinho entre as pernas e obedeciam eram eles. Esse poder inflou meu ego por algum tempo, mas por questão de ética não poderia abusar da minha autoridade.

Foto: arquivo pessoal (Recebendo o troféu de melhor policial da Academia de Polícia de Miami)

Fiquei por 3 anos na Policia de Miami, ali também conheci outro policial Brasileiro veterano, o Dudu. Trabalhamos por pouco tempo juntos em Downtown Miami, onde conhecia bem a comunidade Brasileira empresarial.

Recebia vários elogios assinados pelo Chefe do Departamento de Polícia por ótimos serviços prestados à comunidade, até que um dia as coisas começaram a mudar. Eu era muito popular no Departamento, era o único policial capaz de falar 5 idiomas fluentemente, e como Miami é uma cidade com um fluxo de turismo muito grande, os idiomas eram de grande valia. Fui designado para trabalhar no centro da cidade, em uma parte turística muito famosa e bem frequentada, chamada Bayside Marketplace, causando muita inveja para alguns dos meus colegas de turma, bem como para outros Policiais. Para aumentar a inveja dos meus colegas do departamento, também era amigo do segundo em comando no Departamento: O sub-chefe geral da Policia de Miami, ele era latino e adorava capoeira. Mesmo eu não sendo mestre e nem professor, ensinava o que sabia e meus colegas sempre nos via treinando no ginásio, causando motivo para muita fofoca.

Até mesmo o sargento que comandava o meu setor, meu supervisor imediato, mostrava uma certa inveja e começou a pegar no meu pé com pequenas coisas. Um dia ele retirou o meu previlégio de usar o carro de polícia e me colocou para fazer patrulha a pé na parte comercial do centro, alegando que eu seria mais aproveitado naquela nova função.

Contestei a mudança, mas não obtive sucesso. Já presentia alguma coisa no ar que não estava legal. Um certo dia veio o pior, outra mudança, mas desta vez muito mais radical. Fui transferido para o turno da noite para uma mini estação de polícia no bairro mais perigoso da cidade: Over Town. Aquilo foi a gota d'água, era obrigado a deixar minha esposa sozinha a noite toda, preocupada com aquela situação. Quando perguntei ao meu supervisor o por quê daquela punição, ele contestou em tom sarcástico que não se tratava de uma punição, mas sim de uma promoção. Segundo suas palavras, "eu poderia usar os meus vastos conhecimentos e talentos para ajudar a parte mais carente da população".

Cheguei a pedir ajuda ao meu colega sub-chefe do Departamento, mas ele disse que não poderia atuar nas operaçōes logísticas, pois era responsável somente pela parte administrativa e financeira da organização. Foi então que resolvi deixar a Polícia de Miami. Acho que foi tudo uma grande ilusão e trip de poder.

Me lembro que uma vez estava de serviço no aeroporto de Miami, quando repentinamente encontro com o meu irmão do meio, que passava por um corredor em direção ao setor internacional de embarque. Ele com seu uniforme imponente de comandante de MD11 da Varig, e eu uniformizado de policial americano. Nunca mais esqueci sua expressão de espanto. Ele não sabia que eu era policial e me perguntou se eu trabalhava como segurança no aeroporto. Respondi que não era segurança e sim um Policial da Cidade de Miami, e nunca mais esqueci do comentário que ele fez: "Voce sempre foi mais voltado a ser bandido do que policial, esse país (USA) não é mais o mesmo!”. Talvez ele quiz fazer uma piada; não fiquei ofendido, mas respondi: "Por isso tirei em primeiro lugar na academia de polícia, voce tem que pensar como bandido, para saber como ele atua e depois prendê-lo, e isso voce não é capaz de entender"...

Continuei por algum tempo morando em Miami Beach com minha amada. Decidimos que era hora de casar e constituir uma família. Já havia rodado o mundo e sentia a necessidade de me estabilizar, casar, ter filhos, formar uma família. Estava meio cansado da vida louca. Casamos e tivemos uma filha maravilhosa; a vida nos sorria e tudo era motivo para celebração; havia saído da polícia e encontrado um bom trabalho na área de informática que, como vendedor, ganhava muito melhor. Nossa filha já estava com cinco anos quando decidimos que era hora de mais uma mudança, e finalmente nos mudamos para o Havaí, realizando assim meu antigo sonho!

HAVAÍ, UM SONHO REALIZADO!

Ah! Hawaii, Hawaii... lugar que iria ficar marcado na minha vida com uma intensidade jamais concebida ou imaginada. O impacto que este lugar teria na minha vida e da minha família nunca poderá ser descrito com palavras. Nunca levei a sério o surfe, nem tampouco tive pretensões nem sonhos de me tornar um atleta profissional nesse segmento, talvez porque não era tão bom assim em pegar ondas, só queria me divertir, ter contato com a natureza e a energia do mar, era o que importava. A capoeira e o futebol me davam tanto prazer como o surfe, talvez até mais. No entanto, nunca me destaquei nesses esportes, não me dedicava a nenhum deles com seriedade, mas sempre com muito respeito.

Quando cheguei no Havaí, queria realmente mudar de vida, eu sabia que ali seria um lugar muito especial, não somente por ser a capital mundial do surfe, mas por seus encantos, charme e belezas naturais. O lugar é mágico, logo no primeiro dia de chegada no aeroporto, notei o aroma de perfume de flores por todo lado; aquelas pessoas chegando e partindo, cobertas de colares de flores no pescoço, mesmo sem saber que a forma correta de usar esses "leis" (colares de flores) é sobre os ombros e não pendurados no pescoço.

Saindo pela porta de desembarque, fora do prédio, notei uma lua gigante que refletia sua luz azulada nas folhas dos coqueiros. Sentia aquela energia vulcânica subindo pelos pés, indo até a cabeça, causando uma sensação de êxtase só comparada com o que senti na selva Amazônica pela primeira vez. Ali percebi que havia chegado no paraíso, se é que existe isso no planeta Terra.

Minha vida foi intensa neste lugar, percebi que havia muita coisa a ver comigo e muita coisa a ver com o Brasil, apesar da distância geográfica. O arquipélago Havaiano é o lugar mais isolado do planeta, isso quer dizer que uma pessoa precisa viajar pelo menos por 5 horas de jato, em qualquer direção, para alcançar terra firme. Nenhum outro lugar no planeta tem essa característica ou particularidade.

A cultura Havaiana existe há milhares de anos, porém o que mais me impressionou foi o fato de que existem mais estrangeiros vivendo nas ilhas, do que nativos. A grande maiora da população são orientais, principalmente Japoneses e Filipinos. De acordo com dados encontrados na Wikipédia, 47% da população são de origem Asiáticas; 28% brancos com origem Americana, Inglesa, dentro outros; 17% de origem Hispânicas, e somente 8% de origem nativos das ilhas.

Outro fato que muita gente desconhece, é que já existiam Brasileiros nas ilhas desde o século 18. Muitos vieram para trabalhar nas fazendas como capatazes experientes, trazidos pelos Portugueses que passavam pelo Brasil para abastecer à caminho do Havaí, vindo do continente europeu. Como eles falavam o mesmo idioma, muita gente local assumia que eles (os Brasileiros), também eram Portugueses.

Aquilo tudo era uma novidade! Mais tarde vim a descobrir que o médico do Príncipe Kuhio, figura histórica Havaiano, era um Brasileiro paulista que inclusive levou o príncipe para uma visita no Brasil. De lá o príncipe Kuhio trouxe a banana maçã, muito popular nas ilhas hoje em dia; o abacaxi, que é uma planta de origem brasileira; as flores Bougainvilleas; e o pássaro cardinal. O pardais chegaram nas ilhas infiltrados nos barcos portuguese oriundos das ilhas de Açores, em sua grande maioria.

Decidi que voltaria a estudar depois de tantos anos viajando sem um diploma universitário. Estudei na Universidade do Havaí onde me graduei com "Honors Degree" em Biologia Marinha, com especialização em comportamento de mamíferos marinhos, tendo mo foco o estudo das baleias e golfinhos.

Membro da National Geographic Society em 1993

Fui mencionado no Jornal Honolulu Star Bulletin no projeto

" Ke Kula Kai" sobre estudo das algas marinhas Havaianas.

Anos depois vivendo com minha família no Havaí, fundei o primeiro Centro Cultural Brasileiro, o Brazilian Cultural Center of Hawaii, reconhecido pela University of Hawaii e pelo Prefeito da cidade de Honolulu.

Logo do Brazilian Cultural Center of Hawaii

Escritório do Governador (arquivo pessoal.)

Nuremberg com o Prefeito de Honolulu, Mufi Hannemann.

Enquanto presidente e fundador do Brazilian Cultural Center of Hawaii (BCCHI), desenvolvi vários projetos importantes para a comunidade: Realizei o primeiro evento oficial de Carnaval Brasileiro nas ilhas Havaianas, com a participação de mais de 10 mil pessoas em 5 blocos fechados no centro (downtown) de Honolulu, somente para essa festa; o segundo evento foi realizado na ilha de Maui, com a participação de mais de mil pessoas. Foram os primeiros grandes acontecimentos onde o Havaí sentiu a força e a energia do carnaval Brasileiro. Com a fundação do BCCHI e a criação do Grupo Tropikalia Samba Show, a comunidade Brasileira local se fazia presente nas atividades artísticas e culturais em várias cidades do Estado Havaino, de forma definitiva!

Dois outros importantes projetos realizados pelo BCCHI foram a criação do POWA Program (Portuguese With Aloha), onde oferecíamos aulas de Português para Estrangeiros e filhos de Brasileiros nascidos nas ilhas, e a inauguração do primeiro programa de televisão Brasileira, “Brazilian Updated TV”, vinculado vários anos seguidos no canal 53 na TV à cabo, O’lelo Television.

Arquivo pessoal nos estúdios da O’ lelo Television Hawaii!

Já havia conquistado e realizado vários projetos, mas não parei por aí! Fundei a primeira Câmera do Comércio Brasil-Havaí, com o intuíto de ajudar e incentivar os empresários Brasileiros à expandir seus negócios junto à comunidade Havaiana.

Brazil-Hawaii Chamber of Commerce.

Parecia que tudo estava correndo bem; um casamento bem sucedido, uma carreira de sucesso, apesar da pouca grana, e muitas histórias para contar ao longo das quase quatro décadas viajando e aventurando pelo mundo!

Quando a gente pensa que está no topo do mundo, surgem os eventos e as dificuldades da vida para nos revelar o quanto somos frágeis, vulneráveis e sujeitos às adversidades que nos submetem a provas jamais imaginadas ou concebidas num mundo fantasioso em que tudo é belo e duradouro!

Aí vem e chega o grande dia em que fui diagnosticado com um câncer super agressivo! O mundo havia desabado para nossa família neste dia; os médicos diziam que eu teria no máximo 2 anos de vida se o tratamento com radiação e quimioterapia tivesse sucesso, ou seja, a cura seria praticamente impossível, já que em termos de agressividade da doença, entre 1 e 10, o meu era 9 na tabela.

“A morte ainda é um dos maiores mistérios da vida. É inevitável nos questionarmos o porquê de termos que nos despedir de alguém que amamos, ou mesmo temer o nosso próprio fim. A morte não é apenas como um momento unicamente de dor, mas é como parte incontornável da vida.” (Marcos Kito).

Depois de tantas batalhas vencidas e perdidas, entender que:

“Em nossas vidas, a mudança é inevitável. A perda é inevitável.

A felicidade reside na nossa adaptabilidade em sobreviver a tudo de ruim.” (Buda). E nisso eu sempre me saía muito bem.

“Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte. (Sêneca).

“Porque morrer é uma ou outra destas duas coisas: Ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja. Ou, como se diz, a morte é precisamente uma mudança de existência e, para a alma, uma migração deste lugar para outro.” (Sócrates).

“Deus costuma usar a solidão para nos ensinar sobre a convivência... Outras vezes usa a morte, quando quer nos mostrar a importância da vida.” (Paulo Coelho).

“Tudo que temos a fazer é aprender a não ter medo da dor! Aperte os dentes e deixe doer. Não tente escapar, mas não se deixe abater. Não vai durar para sempre.” (Harold Kushner).

“Quem não sabe o que é a vida, como poderá saber o que é a morte?” (Fonfúcio)

“Ninguém morre. O aperfeiçoamento prossegue em toda parte. A vida renova e eleva os quadros múltiplos de seus servidores, conduzindo-os, vitoriosa e bela, à União suprema com a Divindade.” (Chico Xavier).

“Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte."

(Sigmund Freud).

Depois de ter sobrevivido à vários eventos onde me deparei bem perto da morte, tais como: facada durante uma briga em South Beach Miami; furacão Andrew em Miami; perdido no meio da selva Amazônica, quando era guia de selva; incêndio de desastre aéreo durante a aterrisagem, quando criança; veneno de ratos em uma confeitaria famosa do Rio de Janeiro; passar por vários terremotos, tsunamis, tempestades tropicais, além de avalanche nos Alpes Suiços; naufrágio noturno em uma tempestade, cruzando a França em direção a Ilha de Corsica; sequestro e fuga de grupo terrorista basco; sobrevivência a ataque cardíaco, quando surfava com a minha filha em Cabo Canaveral, na Flórida; e câncer super agressivo, com expectativa de 2 anos de vida.

Hoje acredito que sobrevivi mais de uma década após o diagnóstico de câncer, e demais experiências de quase morte, porque certamente não era a minha hora, eu ainda teria uma missão a ser cumprida...

Evidentemente que não poderia contar todo o ocorrido nessas viagens, nem relatar todos os países que conheci, e tampouco detalhar todos os acontecimentos. Sendo assim, selecionei os fatos e lugares que foram mais marcantes na minha memória.

Foi necessário passar por todas essas experiencias, viajar por todos esses lugares, conhecer todas essas pessoas, e sair de todas essas encrencas, para que afinal? Creio que cada pessoa tem que descobrir a sua própria razão para viver, lutar suas próprias batalhas, vencer suas fraquezas, e conquistar suas vitórias.

No meu caso, viajar o mundo sem dinheiro, conhecer minha esposa Emília, e nos últimos anos iniciar os estudos sobre o Espiritismo, me fez enxergar todo o sentido da vida.

Estudei e frequentei inúmeras filosofias e religiões: Catolicismo, quando ainda criança, Hare Krishna, Budismo, Rosa Cruz, Taoísmo, Sukyo Mahikari, Racionalismo Cristão e Hare Krishna. Sempre admirei e respeitei todas elas, até finalmente conhecer mais profundamente o Espiritismo; uma descoberta por afinidade. Não decidi estudá-la para de repente virar santinho, mas porque vi no Espiritismo sentido em tudo. Foi a única doutrina que conseguiu responder, com lógica e sem fanatismo, às inúmeras questões existenciais da minha louca vida, até então não respondidas. E isso se deve à tríplece que ela representa (Religião, Filosofia e Ciência). Sou um cara lógico, como Spok do Star Treck, mas não materialista.

Parafraseando André Marouço:

"A doutrina que torna o ser humano senhor do seu próprio destino; com o espiritismo aprendemos a duvidar, e a dúvida é umas das maiores dádivas ortogadas ao ser. Nos acostumamos ao longo das encarnaçoēs, de que os poderosos pensariam por nós, era o capitalismo que sabia o que era certo, era o comunismo que sabia o que era errado, era o evolucionismo que mostrava que Deus não existia. E assim, cada corrente de pensamento tratava de dar a sua visão verdadeira do mundo.

O grande problema é que a visão da ciência e da filosofia, vez por outra, parecia apontar para uma visão de mundo que se chocava com a estrutura na manutenção de projetos de poder. Já faz tempo que Roma aprendeu a dominar, ortogando às massas o pão e o circo; e assim, como massa de manobra, os fiés praticamente de todas as religioēs, aprenderam que tudo estava certo.

Que Deus cuidava de tudo, que a espiritualidade protegia os ignorantes, e que no fim de tudo, bastavam respostas simples, sem se darem conta de que uma das crenças mais perigosas que existe, são aquelas que apontam soluçoēs simples, para problemas complexos. No espiritismo então, me dei conta que ser espírita é buscar a verdade através do conhecimento; mas não a verdade rasa e pobre, mas a verdade da ciência, que pode ser provada, sustentada, refutada, e que só pode resistir se de fato for verdade.

Se fizermos uma análise rasa de nossa ignorância do mundo, não tardaremos por nos dar conta que nos acostumamos muito mal a recebermos de graça, ao que só se consegue a altos custos. Nos venderam, gratuitamente, a visão da justiça divina punitiva. Compramos o inferno, nos entregaram de bandeja a idéia de que os santos e os anjos cuidariam de nós, compramos a subserviência e a inutilidade. Nos disseram sem custo algum, que não deveríamos nos preocupar com o futuro. Escravos da nossa crença errônea de que o mundo vai fazer por nós, sem nos perguntarmos que mundo estamos dispostos a fazer.

Quer respostas prontas? Vá com os dogmáticos, leia livros de auto-ajuda, procure o comodismo de se achar injustiçado. Quer construir suas próprias respostas? Estude o espiritismo. Não estou falando somente do Espiritismo encontrado nos romances mediúnicos. O Espírita duvida, estuda, nega, e seguindo esse roteiro de razão, no tempo certo, e talvez após um grande ato de silêncio, descobre que o espiritismo não vai dar nada, senão a certeza de que as respostas nós mesmos é que teremos de encontrar.”

“O dinheiro pode nos dar conforto e segurança, mas ele não compra uma vida feliz. O dinheiro compra a cama, mas não o descanso. Compra bajuladores, mas não amigos. Compra presentes para uma mulher, mas não o seu amor. Compra o bilhete da festa, mas não a alegria. Paga a mensalidade da escola, mas não produz a arte de pensar.Você precisa conquistar aquilo que o dinheiro não compra. Caso contrário, será um miserável, ainda que seja um milionário.”

(Augusto Cury).

Assim fui levando a minha vida, estudando e aprendendo, compartilhando as minhas vivencias com aqueles que se identificam com os meus valores sem me preocupar se isso agrada ou não aos outros que pensam diferente, afinal de contas todo mundo tem o direito de escolher como levar sua própria vida. Hoje entendo que não devo exigir dos outros, mais do que eles possam oferecer, isso evita grandes decepçoes, cada um no seu quadrado, mas uma coisa é certa: Todo mundo vai colher o que plantou, essa é a lei universal de causa e efeito. O ontem já passou, e ficam as lembranças, o amanhã ainda virá, e é imprevisível, o importante é agora, um dia de cada vez. Hoje entendo que não posso mudar o passado, mas posso no presente ser uma pessoa melhor do que fui, afim de construir um futuro melhor.

Nuremberg Sant'Anna

FIM

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